
Português que não tenha entranhado no corpo o desejo de navegar, não lhe devia ser permitido o acesso à cidadania lusa. Parafraseando Alegre, o poeta-candidato, o "acesso à pátria". Natália, outra poeta que infelizmente já não se encontra entre nós, diria melhor -no meu entendimento, que se pátria é do género feminino, mátria como ela escreveu, é que está correcto. Mas isto são meras referências, provavelmente porque o autor deste texto, procura enriquecê-lo e, em paralelo, dar-se ares de vastos conhecimentos literários. Se fosse a vós, saltava estes intermezzos que não adiantam nem atrasam ao que aqui se pretende relatar e avançava na leitura, de peito feito... às ondas.
Escrevia eu, que nas veias, nos corre sangue marinheiro e nem precisamos de nos socorrer dos feitos de antanho, que desses estamos conversados e já chegam de bastas vezes servirem de (pobre) consolo às misérias que se vão vivendo neste rectângulo... à beira mar plantado; pois se até a situação geográfica contribuiu decisivamente para tais cometimentos...
Certo, certo, é que um destes dias em que o rio estava mais revoltado que um daqueles pensionistas que descontaram uma vida inteira para a reforma e depois os euros da mesma se esgotam na farmácia, os utentes da formosa e moderna? nave cacilheira que liga as duas margens de um Tejo a maioria das vezes manso, pouco experimentados em tais embaraços náuticos, deitaram as mãos á cabeça esquecendo-se de lhes dar serventia nos coletes de salvação.
Registei o pânico e a atitude; ou naquele momento, o único filho da pátria que ali navegava era eu?. O que não seria de estranhar, dado não ser hora de ponta e as características rácicas dos outros passajeiros... Meras conjecturas. Por mim, quando a embarcação se inclinou quase noventa graus para estibordo e olhei o Terreiro do Paço, o Castelo e o Panteão por um ângulo jamais observado, jurei a mim próprio que a travessia do Tejo... só pela ponte Vasco da Gama...
Foto de: Alberto Oliveira.