
Jurou que havia de conhecer a verdade dos factos por muito que, eventualmente, isso a fizesse sofrer. Para passar despercebida a quem a pudesse reconhecer do texto anterior, usou um shampô que garantia uma cor três vezes mais brilhante ao cabelo louro (em sinal de aprovação, a sua gata Morgana, encandeada, piscou os olhos seis vezes), trocou a roupa casual por outra que não era tal nem deixava de o ser, apanhou o metro no Cais do Sodré, saiu na Baixa-Chiado e voltou a entrar num combóio cujo destino era... o Cais do Sodré. À segunda tentativa conseguiu chegar à estação dos Restauradores e, à superfície, percebeu que para ficar nas proximidades do edifício da Câmara, teria de voltar ao princípio. Retrocedeu, desta vez a pé, na direcção do Tejo. Resistiu à tentação de entrar numa sapataria (os sapatos eram a sua secreta paixão...) mas cedeu ao chamamento desafiante dos bolos na montra de uma pastelaria. Um babá e uma água depois, os acordes de "Just Around The Corner" no seu telemóvel, chamaram-na à realidade. Era Jesualdo mais o seu inconfundível registo de voz afectado, a pretender semelhanças com apresentadores de telejornais «Então onde anda a minha mais-que-tudo, que liguei para casa e não atendeu?» Eunice não perdeu um segundo a retorquir «E o meu amorzinho não se lembra que hoje é dia da sua amada comprar verduras, no Mercado da Ribeira? Não me diga que não consegue ouvir a senhora da banca das curgetes e tomates a gritar "quem me acaba o resto?!"? E o meu querido? Está a despachar despachos com o despacho que lhe é tão caro?» Ela registou que ele demorou a responder afirmativamente uns bons cinco segundos. Depois de desligar, teve a nítida sensação de que alguém, nas suas costas, a observava: voltou-se a tempo de reparar na jovem - encostada à esquina da tranversal rua dos Correeiros - que desviou rapidamente o olhar...
Continua com outro dígito.
Texto e foto de Alberto Oliveira.