Saturday, November 29, 2008

"PERNAS PARA QUE AS QUEREM?"

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... perguntava-se Li Sai Só, risonho e abastado comerciante de vinhos licorosos na florida e industrializada cidade de Ter Pé Sai Karo, reconhecida pelas suas aromáticas e espirituosas bebidas. Recém-chegado ao Porto por solicitação do seu criador, encontrava-se agora na enorme sala expositória na companhia de dezenas e dezenas de clones seus que apenas se distiguiam pelas posições corporais e no tamanho, uma vez que as componentes faciais a todos eram comuns: do sorriso-em-paz-com-a-vida até aos olhos rasgados, característicos dos povos orientais. Do lado de cá do espelho, Li Sai bem se curvava para não perder qualquer ângulo de visão e não queria crer no que via: ao contrário do que acontecia com os seus iguais, as pernas dos visitantes não se detinham junto a si, ele que se imaginou cercado de questões de toda a ordem e que para as quais já tinha engatilhadas respostas na ponta da língua, resultantes de outras exposições noutros paises. Até que percebeu: apressadas, as pernas dos visitantes corriam ao encontro dos respectivos troncos e cabeças que se encontravam mais acima e do outro lado do espelho.

2008. Texto e vídeo de Alberto Oliveira.

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NOTA: As pernas que se possam observar do lado de cá do espelho (do lado onde se encontra Li Sai Só), entraram nesse espaço depois de editado este post e, naturalmente, à revelia do autor do mesmo. São as pernas que se conhecem popularmente por "sem pés nem cabeça".

Sunday, November 23, 2008

EM CONTRA-MÃO

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Pertence ao alargado grupo daqueles que tremem por tudo quanto é sítio quando são obrigados a conduzir-se no país dos bifes com batatas fritas e ovo-a-cavalo, exercitando-se muito antes mentalmente em animadas e complexas sessões "esquerda-direita", "direita-esquerda" a ponto de se baralharem por completo, deixando-se ir "rodando ao centro", que é como quem diz, pisando permanentemente o traço contínuo da esperteza natural, tão cara a tantos luso-encartados. Escrevo sobre o meu vizinho Florêncio que não o fez por menos: treinou logo pela manhã numa rua da cidade com sentido único, manobrando o Fantasias, garboso corcel topo de gama com tracção às quatro patas, não fazendo caso dos avisos do cão Fantas "que o 35 da Carris se aproximava em sentido contrário."

2008. Texto e vídeo de Alberto Oliveira.

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Obs.: Todas as personagens e situações deste texto, são fruto da imaginação delirante do autor . Quaisquer coincidências com a fantasia, são puras semelhanças com a realidade.

Monday, November 17, 2008

A SINA DA CIDADE

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O fado da cidade, é dela parecer necessitar do fado que lhe atravessa as entranhas, como do pão para a boca. Doloridas, a música e as palavras vindas de histórias de amores canalhas e paixões indizíveis, cravam-se na calçada portuguesa, deliceram ruas e avenidas e levam às lágrimas becos e travessas. A voz da fadista que preenche o pequeno rectângulo do vídeo, tem a forma de uma guitarra que se confunde e prolonga, nas vozes dispersas dos que, de tão apressados passarem, não lhe sentem as cordas nem lhe ouvem as queixas. Porque é um fado que de tanto se ouvir já não se dá por ele. Apenas a cidade.

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Além do fado que aqui hoje vos trago, também a Minguante-Revista Online de Microcontos, tem fados para todos os gostos e feitios. Leiam-na "e digam lá (depois) se pode ou não escrever-se o fado".

2008. Texto e vídeo de Alberto Oliveira.

Saturday, November 08, 2008

O CICLO DO CICLISMO









"... bom, sentada já ela está e há quanto tempo... mas em bicos dos pés. Do mal o menos: o seu rabo até se adapta bem ao meu selim e não é da clientela mais amiga das calorias, que esta semana já me calhou um que, mal me montou, o aro da roda de trás deixou de ser uma circunferência perfeita. Sim, que ele há cada utilizador do serviço que presto à comunidade... Mas com esta jovem -e dos nervos que a acometeram, fazendo-me estremecer o guiador, das duas uma: nunca experimentou o prazer supremo de pedalar num velocípede como eu e receia que o corpinho beije o asfalto quando deixar de ter os pés apoiados no chão, ou fica a fazer serão nesta posição até ao final deste texto. Não que me deite a adivinhar, mas quase aposto que lá bem no seu íntimo, já se arrependeu mil vezes de não ter comprado o título de transporte da Carris e que por esta altura já tivesse chegado a Belém. Pior ainda: começam os transeuntes a olhá-la com alguma surpresa, sorrisos mal-disfarçados e comentários jocosos como o daquele jovem casal que agora voltou as costas a estas linhas e a imaginou uma séria concorrente à estatuária da cidade, no geral, e à do Terreiro do Paço em particular ..."

2008. Texto e foto de Alberto Oliveira.