Tuesday, April 06, 2010

UM CÃO NA CIDADE












Indiferente ao Homem Diferente o Cão Incomum dobrou a esquina do velho imóvel com um abanar incrédulo de orelhas e o rabo alçado em curva, qual periscópio diverso de submersível imerso. De facto, o seu olfacto apurado e rotinado para reconhecer a passagem de perna levantada de um seu igual - estranhamente e ao longo daquelas paredes, não detectou qualquer sinal excrementício canino. Lisboa já não era o que fôra, congeminou desalentado. Desrespeitosos, dois pombos voltaram-lhe os rabos à sua passagem, dirigindo olhares e atenções para a atracação do cacilheiro Madragoa a um modernizado cais sem colunas descobertas. "... ai Lisboa, quem te dera estar segura que o teu canto é sem mistura... " rezava a letra dum fado que, em musical lamento, saía porta fora dum restaurante e ia afogar as mágoas nas águas cinzentas do Tejo logo ali, à mão de semear. Sendo verdade que um cão não tem memória para estrofes completas, complexas, passadistas e apelando ao drama, é bom recordar que este era um Cão Incomum e dado às coisas do social e da cultura. Muitos outros, mais comuns, ficaram a dever-lhe o levantamento topográfico de cerca de dez mil wc´s-canídeos (bases de árvores, postes eléctricos, sinais de trânsito em altura, muros de quartéis e de repartições públicas) sitos nos bairros mais modestos da capital e um opúsculo poético (em homenagem aos cães mais desfavorecidos) glosando tácticas defensivas e manobras de diversão para escapar à feroz perseguição camarária em tempos idos e de revolta sentida no pelo. Um nó de emoção cresceu-lhe naquela parte do corpo que nunca tinha conhecido coleira, recordando a matilha amiga dessa época e que pouco a pouco, fôra desaparecendo sem deixar rasto. Agora era um cão só, numa cidade que lhe custava a reconhecer. Com a presteza que as patas ainda lhe permitiam, rumou a Alfama. O talho 45 na rua dos Remédios era o seu objectivo. Num dia de sorte, um empregado simpático, de farda branca salpicada de sangue, atirava-lhe um osso com imaginários resquícios de carne. Nos outros - que eram a maioria - desprevenido, sentia nas costelas escanzeladas, a biqueira do sapato do patrão do açougue.

2010. Texto e foto de Alberto Oliveira.


27 Comments:

Blogger lélé said...

Tu pegas na máquina, disparas ao acaso e fazes uma história inteira, contrariamente a outros, que pegam nas máquinas, fazem pontaria e desfazem várias vidas... Mas isso são outras histórias, a que a tua me leva, de certa forma, porque é triste!...

7/4/10 00:59  
Blogger Rosa dos Ventos said...

Como sempre de se ler de um fôlego!
Gostei deste cão perdido sem coleira!

Abraço

7/4/10 12:44  
Blogger Fa menor said...

Mas o que é de admirar é que ande por aí um cão à solta!... ainda não veio ninguém do canil municipal deitar-lhe a mão?... é que ainda por cima é um cão culto, e os cães cultos, tal como as mulheres que lêem, são perigosos!
:)
Boa semana

Bjos

7/4/10 14:43  
Blogger ss said...

é pá,
logo hoje que eu precisava de animar vieste relembrar a vida triste de tantos canídeos. Eu sou um coração de manteiga no que toca a animais.

7/4/10 17:38  
Blogger Lídia Borges said...

De facto, uma escrita muito criativa, incisiva e oportuna.
Gostei deste Cão Incomum, sozinho, à deriva pela cidade...

L.B.

7/4/10 18:54  
Blogger Joana said...

Um Homem Diferente, um Câo na Cidade... dá vontade de trocar... o Homem na Cidade que escreveu o poeta e cantou o fadista e o Cão Diferente que segue pelas ruas de um Lisboa muito diferente.

8/4/10 00:14  
Blogger Lyra said...

Olhem este sitio absolutamente delicioso para se desenhar, "desabafar" e descontrair :o)

Percebi que não é preciso sabermos desenhar bem para ilustrarmos ou "escrevermos" o que nos vai na alma através do desenho...E às vezes é bem mais fácil desenharmos o que nos vai na alma em..."silêncio"

E podem sempre adicionar o desenho ao vosso blog ou enviá-lo por e-mail a alguém.

www.sketchtag.com - visitem - vale mesmo a pena! Divirtam-se!


Até breve.

;O)

Lyra

8/4/10 10:32  
Blogger São said...

Epero que este Cão Incomum me cruze o caminho mais vezes, porque gostei de o conhecer.

Um abraço.

8/4/10 12:06  
Blogger Blondewithaphd said...

Ora aqui está uma maneira hiper-original de legendar uma imagem!

8/4/10 13:20  
Blogger gabriela r martins said...

a necessidade compulsiva de te ler

,caramba!




.
um beijo

8/4/10 16:57  
Blogger MagyMay said...

Parece-me que este cão incomum, tem muito em comum com o homem diferente.
ahhh... a bengala, é que faz toda a diferença, claro!
... obviamente, que nunca se viu um cão com bengala, ó!

Abraço e sorrisos

8/4/10 18:09  
Blogger MagyMay said...

Só, mais um bocadinho...

Li, agora o teu comentário no T&C(rs).
Então!? a Desfolhada é cantada pelo Marco Paulo!!!!!
...essa memória...ai essa memória!

8/4/10 19:59  
Blogger Marta said...

Um pouco o nosso próprio retrato...
Perdidos numa cidade que desconhece já o seu próprio respeito....
Brilhante...
Obrigada pela visita....
Beijos e abraços
Marta

8/4/10 21:39  
Blogger Justine said...

Uma boa metáfora de todos nós, este cão incomum. É um sobrevivente, e viverá de memórias e do dia-a-dia, como os homens seus semelhantes.
Muito bela e triste a tua história, Legível

9/4/10 12:45  
Blogger oxalá said...

Biqueiras de açougueiros encartados
vão sobrando pelas alfamas e quejandas neste fartote em que se arrasta qualquer cão incomum e até comum.
Olha bem para a foto: cinzentas tonalidades de verso e reverso. Tricota tricota, compadre!
Até os caracóis recusam pôr os corninhos de fora - ainda serão dois pares deles?
Ou foram despejados e misturaram-se com as lesmas?
E o Tejo até nem tem já margens de minhocas! Que vai ser da pescaria?
Compadre, tricota tricota!

9/4/10 22:01  
Blogger pin gente said...

a crise até atinge a comunidade canina... pobre corça!

um beijo

10/4/10 11:34  
Blogger uminuto said...

saudades de por aqui passar. de encontrar pedaços de vida(s) perdidos entre as palavras que adornam as imagens. como um cão perdido nessa Lisboa que descubro nas tuas histórias, nesse (re)encontro com sentimentos encostados a um canto.
um beijo

10/4/10 20:24  
Blogger mixtu said...

o cão que percorre a cidade...
o talho..
é da cidade, se não mostrar medo ninguém o incomoda
mas nãpo haverá talho... a asae não deixa que lhe deitem os ossos...

abrazo serrano y europeo

10/4/10 22:03  
Blogger Ana Lina said...

(Não são todos os cães incomuns?)

Como sou do contra vou fingir que não me emocionou. Mas é só por causa da pintura.

10/4/10 22:45  
Blogger Mar Arável said...

Conheço o teu cão

só não conhecia o texto

soberbo

Abraço

11/4/10 00:11  
Blogger segurademim said...

... estás muito nostálgico em relação a uma Lisboa que já era!!!

ainda bem, que é outra
renovada e com muito mais ofertas. preocupada fiquei eu, com a tua falta de perspectiva

estás a ver? o que interessa é saber se o bichano tem chip e caso tenha, deves contactar o dono e alertá-lo para a desorientação do animal...

devias tê-lo levado contigo

12/4/10 16:40  
Blogger Ruela said...

;)

faltam os bolinhos...


Abraço.

12/4/10 20:17  
Blogger JPD said...

Não faço ideia da capacidade de memória de um cão.
Seguramente, será de várias centenas de GB.

Simbolicamente, o que interessa é que há uma memória de Lisboa que se está a perder e não será a pontapé em cães que ela se reaviverá.

Um abraço, Alberto

12/4/10 22:56  
Blogger Alien8 said...

Além do mais, um cão de utilidade pública, como ficou demonstrado na narrativa fotografada, ou na fotografia narrada, como o autor quiser e de acordo com a disposição do momento do dito e mais de quem o lê.

Cão de sentimentos,
cão vadio,
cão poeta,
mais de raiva que lamentos,
cão sem frio,
cão sem trela,
cão sem dono e sem cadela,
cão de mar e guerra
aos quatro ventos,
cão sem terra e
cão sem treta.

13/4/10 01:39  
Blogger Licínia Quitério said...

"Era um velho cão vadio que não usava coleira nem pagava imposto..." -(Guerra Junqueiro). Tenho andado em pausas, que contigo aprendi, mas as minhas muito pouco profícuas. Leio-te, leio-te, e fico para ali, com o queixo apoiado na mão esquerda, à espera que a direita se aplique no teclado, mas nada... nada me ocorre que se adapte às circunstâncias e relevâncias dos teus textos. Hoje, depois de fazer um exame de consciência, de que eu própria fui o examinador, decidi. Vais escrever, vais escrever. Pronto. Escrevi. Na próxima, verás a minha verve em alta fervura, com comentário inteligentíssimo, à altura, comprimento e largura da tua prosa cada vez, essa sim, cada vez melhor e mais saborosa.
Um abraço e as desculpas, amigo Legível.

13/4/10 12:50  
Blogger © Piedade Araújo Sol said...

um texto criativo para uma imagem perfeita.

um beij

14/4/10 10:06  
Blogger Rui said...

Não gostei nada de ver a minha história contada assim.

Também estava, como a Licínia, com o queixo peludo apoiado na mão esquerda (o peludo não se aplica à Licínia) e a pensar o que fariam na minha história os marmanjos dos pombos.

Podia ser na Rua dos Remédios, mas, pensei, as minhas ruas já não têm remédio.

Um abraço, ó Legível.

16/4/10 10:07  

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