Saturday, March 06, 2010

PAUSA EM MOVIMENTO DUAL (10)












«Nada me move contra a pesca dita desportiva, de lazer ou, acrescentaria, a de tentar fintar a carestia de vida arredando a barriga e a bolsa do balcão da peixaria. Não dominando a arte da dita actividade, atrevo-me no entanto a imaginar que ela não carece de grandes conhecimentos técnicos-tácticos e que a maior virtude de quem a pratica, reside numa enorme dose de paciência. Pois é aqui que bate o ponto: nela, dificilmente me revejo, aguardando paulatinamente que um besugo ou um sardo - traiçoeiramente engodados por minhocas-mártires de uma guerra que não pediram - abocanhem os anzóis até serem içados para um meio-ambiente adverso do seu. A minha maneira de ser e de estar, colide frontalmente com a passividade física do pescador enquanto segura o zingarelho piscatório, tendo na sua frente uma imensa massa de água, cuja monotonia apenas é quebrada ocasionalmente pela passagem ao largo, da silhueta de um petroleiro ou de um navio de cruzeiro. Defendem alguns, que para reflectir nas coisas da vida não há melhor que a pesca. Podem ter imensa razão. Mas fico na minha: para meditar, prefiro uma corridinha urbana de dez mil metros pela manhã .» concluiu Euclides convicto e quase sem fôlego, pois nem um parágrafo sequer tinha entremeado no seu longo discurso. Demétrio, fazendo jus à fama de bom ouvinte, permitiu que o amigo regressasse à respiração normal e inquiriu candidamente «Corres em linha recta e pausas nas curvas?»

2010. Texto e foto de Alberto Oliveira.

24 Comments:

Blogger Justine said...

Cá para mim o Euclides corre em qualquer direcção,em qualquer lugar, em qualquer país, porque para ele o importante é correr para (não) pensar...

Abraços

6/3/10 13:19  
Blogger Fa menor said...

Muito subtil, Justine, muito subtil!...

Olha, essa linha recta só pode ser a da cana de pesca!

Bom fim de semana!

Bjos

6/3/10 15:00  
Blogger Há.dias.assim said...

A pesca não é para mim...
mas gostei do texto e da fotografia

6/3/10 15:36  
Blogger Daniel Santos said...

A pesca apenas me diz algo pelas recordações do meu pai... fora isso... não me entusiasma.

6/3/10 21:12  
Blogger Licínia Quitério said...

E Euclides respondeu, de má catadura (gosto desta palavra): Ó pá, dedica-te à pesca! E deitou-se à estrada ziguezagueando (também gosto desta).

Até que enfim regressaste. E para ficar.

Beijinhos.

7/3/10 09:59  
Blogger JPD said...

Estás a ver Alberto, são estas perguntinhas que «Entornam o guisado...»

Já a anedota dos amigos que vieram da pesca com relatos magnânimes é tolerada -- Um com um robalo de cinco Kgs; o outro com um candeeiro aceso... (Vá lá que o primeiro tirou quatro Kgs ao robalo para que o amigo, ao menos, apagasse o candeeiro. Vá lá!) --

Porque será que relatos exaltados nunca abordam o tema do sedentarismo?

Acabariam em bocejo?
Por vergonha?
Por excesso de peso?

Um abraço

7/3/10 22:05  
Blogger Marta said...

Uma boa pergunta...para meditar....
Obrigada pela visita
Beijos e abraços
Marta

8/3/10 11:18  
Blogger MagyMay said...

- Nunca me vou dedicar à pesca... não faz pandã com a minha maneira de ser.
- Preferia meditar nas rectas mas sou atazanada pelas curvas.

...palavras fresquinhas ouvidas às 6.30h da matina na banca da Ermelinda da praça, no meio da hortalice...

Um sorriso enorme, pela volta... um abraço mais que enorme

8/3/10 14:52  
Blogger São said...

Posso assinar contigo? rrss É que a pesca também não me atrai,,,tal como a corrida, aliás.

Semana boa

8/3/10 18:12  
Blogger alice said...

eu gostava de saber pescar, mas o meu sonho mesmo era aprender a andar de bicicleta, só que o médico disse-me que uma coisa não invalida a outra e proibiu-me de comer laranjas :) beijinho grande*

8/3/10 22:36  
Blogger Teresa Durães said...

detesto a pesca! a linha embaraça-se no carreto, os peixes desaparecem, eu tenho de arranjar paciência para ficar ali à espera. Não!

(ainda à espera de uma resposta sobre o Lançamento do Navia...)

9/3/10 14:08  
Blogger Rosa dos Ventos said...

Sempre divertido e a fazer pensar...

Abraço

10/3/10 17:03  
Blogger bettips said...

Mas a táctica é muito importante, mesmo que a pesca nos deteste a nós e nós a ela. Repara se o pm pescava em vez de correr, quem se penduraria nos rochedos a perguntar "o que está a sair? alguma pe(s)c ada?".
Eu cá conheço um pescador que nunca pensou a não ser nas marés. É o meu pai, agora não pesca mas também não pensa. 'bora lá com os pescadores de águas turvas e os corredores sem fundo!
Bjs e abrçs

10/3/10 18:14  
Blogger Alien8 said...

Excelente perífrase para "Não há pachorra para a pesca à linha!". Isto segundo o Euclides, cuja resposta à cândida pergunta do Demétrio espero ansiosamente - quase sem fôlego, diria mesmo.

Um abraço.

11/3/10 01:44  
Blogger Rui said...

- Corro é contigo do penhasco a baixo se não te calas - respondeu Euclides sem olhar para o companheiro de solidão. - Não vês que os sardos lá em baixo conseguem ouvir um alfinete a cair no fundo do oceano?
- Sardo? Isso é peixe que existe? Não será Sargo?
Euclides não conseguiu esconder a irritação, mas também não disse nada. Na verdade, ele não pescava nada daquilo.

11/3/10 14:54  
Blogger legivel said...

Para Rui:

Sardo é um sargo que tem sardas. Peixe sardento ou sardoso, explicou-me o Euclides Manhoso.

Catorze comentadores não deram por nada ou então, uns tantos disseram lá para com eles "o gajo antes de escrever baboseiras, devia documentar-se e não fazer figuras tristes." Outros, bem intencionados, admitiram que distraido, troquei um "g" por um "d". Um grupo reduzido, não ligou porque já sabe que estas histórias não têm guelras por onde se peguem nem escamas onde se agarrem.
Tu, estás de parabéns. Ganhaste um galhardete SLB com a águia Vitória abocanhando um llobarro* ainda fresquinho.

*Robalo.

11/3/10 17:03  
Blogger Rui said...

Olha cá, e que tal se com o sol que há-de vir se fosse escamar essa bicheza toda ali para onde os silos fazem sombra?

11/3/10 17:06  
Blogger arabica said...

Bom...eu gostava de ter feitio para não me comprometer, mas não deve ser nesta vida que o hei-de conseguir...imagina aqui a tua amiga, ao fim de um dia esplenderoso de verão ali aos pés do castelo do Arade, a deitar a linha ao mar e a pescar a orelha do senhor que ia a passar...

Depois, ainda não satisfeita tenta de novo e apanha um sapato velho...

Sardo, Sargo ou Pargo é na banca do mercado que a partir daí, me dedico à pesca... :))

Beijinhos e sorrisos

11/3/10 19:42  
Blogger gabriela r martins said...

corro em zigue.zague e páro nas contra.curvas......como ,geralmente ,as curvas faço.as de olhos fechados ,não sei quais os meus movimentos giratórios.......




.
um beijo ,preparando.me para o triatlo

11/3/10 21:42  
Blogger São said...

Bom final de semana, com muitos peixes...grelhados, rrss

12/3/10 14:06  
Blogger Rui Fernandes said...

Li tudo de fio a pavio sem perceber o sentido da expressão que acabo de utilizar. Será que o fio é aquilo que está preso entre a cana e a minhoca? Será que o pavio é meio peixe, meio navio? E, se é peixe, o que o distingue do safio? Volto a ler tudo em recta transversal e esbarro com a palavra "curvas". Curvas? Interessa-me; será que é gajas? acode logo o Pointenelas. Está calado, disse-lhe, se não mando-te dar uma curva! Ele calou-se e eu perdi o fio à meada. Olha outro fio, disse eu falando ... para mim, claro, não havia mais ninguém que me ouvisse. Meada, mas que vem a ser isto? Há aquelas massinhas, mas não vêm ao caso. Só se fosse para a massada que parece ser um prato muito ao jeito dos pescadores.

Ele há pausas para tudo, reflecti conspicuamente. Não é que "conspicuamente" tenha a ver com o caso, mas há palavras que ficam sempre bem em certos contextos. Para exemplificar, é como "contextos". Dá um jeitão, não dá? E gente diz que qualquer coisa é assim porque é do contexto e dá logo o ar de uma certa inteligibilidade, de uma certa compreensão de coisas que nem dá para explicar. Mas lá fica aquele toque de intelectual, de quem com muita escola suprime as ineficiências da inteligência.

Aqui e agora (que rigor de complementação circunstancial!), a pausa é entre a pescaria e a corrida. Dir-se-ia que a pescaria é mais rápida porque facilmente atinge o seu objectivo sem sair do lugar. A corrida, pelo contrário é mais veloz sendo a velocidade apreciada pela função diferencial do movimento sendo irrelevante saber quem chega primeiro, se a lebre ou a tartaruga. Dizia-se, nos tempos da monarquia constitucional, "corre cão, senão fazem-te barão". Correr para quê? Pergunta-me o cão que já é conde redondo, alcunha com que ficou por andar sempre aos círculos a perseguir a respectiva cauda.

Cauda da Europa?

CALE-SE, IDIOTA !!!

12/3/10 19:55  
Blogger mixtu said...

não vi o teu amigo...
também estive lá, a dar banho à minhoca...
acontece...
nem corri... só pausas...
yayayay

correr... só à frente da policia, o que tem sido raro, já não bailes na serra qu edão porrada...

abrazo serrano

12/3/10 21:37  
Blogger casa de passe said...

Estou completamente de acordo com o Euclides.
Quanto ao Demétrio fica muito calado a ouvir as pessoas talvez para tentar compreender o que elas querem transmitir...


Alice, a Fininha

13/3/10 01:38  
Blogger lélé said...

Por mim, o sardo passava muito bem por peixe!... Ultimamente tenho ouvido falar mais de percas do que de perdas, mas peixe?... Nem vê-lo!...

O Demétrio é maroto!... Ele sabe que, se o Euclides corresse em linha recta e pausasse nas curvas, não se despistava tanto...

14/3/10 03:09  

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