Friday, February 05, 2010

PAUSA PARA SURREALIZAR (7)













Grácil, Antonieta cirandava pela esplanada atenta aos clientes que chegavam, às mesas que vagavam e aos pedidos que lhe solicitavam. Os frequentadores mais antigos eram unânimes em elogios a seu respeito "Aquilo é que é uma cabeça! não precisa de apontar nada... " afirmavam incrédulos aqueles que dificilmente se recordariam do que tinham almoçado no dia anterior. "É uma profissional de mão-cheia!" sentenciavam outros, desatentos a trabalhadores de mãos vazias de nada "E não se vê um grão de sujidade numa unha nem um cabelo caído sobre os ombros." ajudavam à festa os defensores acérrimos da higiene no trabalho de restauração. Os que vinham pela primeira vez, não queriam acreditar que poucos segundos depois de se sentarem, uma voz amabilíssima vinda do interior daquele vestido branco de outras épocas, os interpelasse «Sejam bem-vindos. Não se importam de me dizer o que vão desejar?» e dois minutos depois o pedido estava na mesa. O seu nome atravessou fronteiras e as artes do espectáculo contribuiram para esse reconhecimento público. Alicia Keys dedicou-lhe uma canção (Boy Meets Girl no Head) e Scorsese, inspiradíssimo, imortalizou-a no filme "Antonieta doesn´t live here anymore" ("Antonieta despejada!" seria o título em português-de-Portugal). De tal modo que um anónimo turista francês, curioso por conhecer ao vivo Antonieta não ficou desiludido «Bienvenue, monsieur! Qu´est-ce que tu bois? Café, eau ou du vin rouge?» não se atrapalhou ela que não tinha um dedo que adivinhava a origem dos novos clientes mas deitava-se a fazê-lo. Ele sorriu e disse para com os botões do seu blaser "Só pode ser parente da outra! Apesar de não terem cabeça, dão sempre um ar da sua graça."

2010. Texto e foto de Alberto Oliveira.

35 Comments:

Blogger Daniel Santos said...

fascinante...

5/2/10 22:21  
Blogger Lídia Borges said...

Uma imagem muito bem tratada.

Isto de não se ter cabeça dá que pensar.

L.B.

6/2/10 13:54  
Blogger Justine said...

Ah que bem me soube ler-te, homem! Senti-me tão bem acompanhada! É que às vezes dão-me coisas dessas,e eu a pensar que era "taralhoquice" da idade, afinal não, é surrealismo, mesmo sem cadafalso! UAU!!
(Abraço coxo...)

6/2/10 16:53  
Blogger MagyMay said...

Provávelmente, porque tenho a cabeça feita num oito...
...esta Antonieta parece-me mais estilo "cabeça fria" que "sem cabeça"!

Bom Domingo
Abraço

6/2/10 23:45  
Blogger JPD said...

Olá Alberto

Palpito eu, que não sendo dado a essas coisas, raramente arrisco:

A jovem, ou é neta de Kiekegaard e topou logo o «In Vino Veritas» ou será uma descendente de Platão protagonizando em «Sócrates e o Banquete».

Uma coisa será certa, servir à mesa com tanto aprumo e dignidade é quase um desígnio religioso: a mesa reconvertida em altar para que aquela mole humana a exalar paganismo por todos os poros, seja,pelo excasso tempo de uma bebida, convertível a uma cerimonial.

Gostei da narrativa e da ironia.

Belíssimo fim de semana.

Saudações

7/2/10 12:47  
Blogger JPD said...

Parte II:

É claro que a omissão da cabeça pode remeter para a ideia de desespero humano.

Mas acho este atalho desinteressante.
É que fisicamente, a memória residirá no cérebro... Algures... O melhor é esquecer!

Um abraço

7/2/10 12:49  
Blogger Idun said...

não contaste foi a parte em que aquele casal à esquerda (o homem de azul, com óculos de sol e a mulher de cabelo muito curto)teve uma enorme discussão, por causa das olhadelas que ele, julgando-se escondido pelos óculos escuros, deitou a antonieta.
-ah malandro! - gritou-lhe a mulher - some-te da minha vista, seu diabo mulherengo, que qualquer uma te faz perder a cabeça!

marradinhas da bicharada, e venham mais pausas (mesmo que a elas cheguemos com atraso...)

7/2/10 20:57  
Blogger oxalá said...

Desta vez enganaste-me: não estava à espera do brioche! rsrsrs
Mas o raça do franciu teve mesmo graça!

Abraço, compadre!

7/2/10 21:03  
Blogger Marta said...

Gostei...Uma ironia bem disfarçada na história calma...
Obrigada pela visita
Beijos e abraços
Marta

7/2/10 22:03  
Blogger Teresa Durães said...

lol! mas sem cabeça é sempre melhor, não tem oportunidade para desatinar!

8/2/10 10:14  
Blogger Rosa dos Ventos said...

Só tu para me fazeres rir com as tuas estórias tão bem estruturadas.
Este final está hilariante, quase de se "perder a cabeça" e sair para uma esplanada, mesmo com este frio! :-))

Abraço

8/2/10 11:46  
Blogger uminuto said...

eheheh sem dedo, mas ainda com cabeça...afinal já lá a dita Revolução!
adorei ler
um beijo

8/2/10 14:58  
Blogger alice said...

eu conheço um filme chamado alice doesn't live here anymore, mas confesso que nunca o vi na versão da antonieta :) beijinho, alberto.

8/2/10 18:30  
Blogger bettips said...

Isto não é surrealismo, é puro filme de terror
cervejas servidas sem cabeça nenhuma
uma parecença com uma tumba, ali ao pé
(e ninguém a brindar com rosé!)
olhos em bico
blasers mudos
a europa em crise com alice que perdeu as maravilhas,
... e a tua mania de falares do trabalho de mão cheia, de mão vazia, de escutar-sem-ouvidos,
ah Alberto!!! se uma estação ou um jornaleco te apanhasse...
Bjinhos

8/2/10 18:41  
Blogger MagyMay said...

Vistes (lestes), o que dá as (minhas) imitações da (tua) Antoinette???
Vês, o porquê de antes cabeça fria que sem cabeça???
rsrs

Nunca me teria saído, aquele post, ora!!
rsrs

Um sorriso e um enorme ABRAÇO, Legível
O teu comentário-poema está excelente, excelente, excelente... Obrigado!

8/2/10 19:21  
Blogger São said...

Pois, continuo a gostar do que escreves...

Boa tarde

8/2/10 19:48  
Blogger Ruela said...

Mesmo à maneira que gosto...

;))

Abraço.

8/2/10 22:40  
Blogger Mar Arável said...

Un texto como sempre bem escrito

com palavras legíveis

que nos transportam

para tantas realidades

com cabeça tronco e membros

8/2/10 22:52  
Blogger Há.dias.assim said...

Bela a história, mas ainda bem que termina assim, é que a perfeição não existe.
Mas fico feliz por saber que ainda há quem tenha atenção ao brio profissional.
:)

8/2/10 23:45  
Blogger Joana said...

Cá para mim a Antonieta de Cabeça Perdida com este ar tão pomposo, namora com o Napoleão de Braço Escondido Bonaparte.
Assim como assim só se estraga uma casa.
:D
Bjs

9/2/10 10:03  
Blogger Licínia Quitério said...

Ao confirmar as suas suspeitas de que os recém-chegados eram mesmo franceses, Antonieta apressou-se a perguntar: Et chez nous ça va? Apanhados de surpresa, fizeram uma revisão instantânea do compêndio de História e atiraram:

Da Bastilha ao Eliseu
pouco mudou desde então.
Muita cabeça perdeu
sua principal função
de segurar o pescoço.
O que nos vale é a Bruna
pouca carne e muito osso
e as caretas do Sarko
tal e qual um personagem
da série Alô, Alô.

Parece que Antonieta não entendeu o arrazoado, pois se limitou a dizer: Ah bon,les gaulois sont toujours fous.
E continuou na sua errância por entre as mesas.

9/2/10 12:49  
Blogger Fa menor said...

Sem cabeça ou com cabeça de gigantone?... agora que aí vem o entrudo!... :)

Beijos (e sorrisos)

9/2/10 13:18  
Blogger mixtu said...

yayayya
é parente, parente por simpatia...
isto é, quem é parente é o marido... logo ela é parente por simpatia
yayayay

abrazo serrano

9/2/10 14:44  
Blogger CCF said...

Um texto...de perder a cabeça :)
~CC~

9/2/10 15:53  
Blogger Rui said...

Toda a esplanada parecia fazer-lhe sinal. Rodopiava por entre as mesas como se dançasse um corridinho. "Hoje, não tenho mãos a medir", suspirava ela por entre garotos, meias de leite, pingados, tostas e imperiais. E foi então que o viu. Numa mesa mais afastada, lá estava Milo como seu perpétuo sorriso. Estava acompanhado por uma bela e enigmática mulher. Antonieta pareceu reconhecer a sua amiga dos peitos, mas seria confusão. fosse como fosse, sentiu-se menos mulher, ao vê-la na companhia de Milo.

9/2/10 16:48  
Blogger Rui said...

Legível,

É impressão minha ou tinhas-me perguntado uma coisa sobre o Milo?

9/2/10 17:34  
Blogger legivel said...

Para Rui:

Não é impressão tua, tinha perguntado mesmo, mas uma experiência técnica mal-sucedida aqui no "Fantasias" "limpou-me a questão que era mais ou menos isto:

Milo, o pai da Milupa - percursora dos implantes mamários à base de farinha com glúten (o silicone viria mais tarde) ou o incontornável Milo do ainda mais incontornável Duo Ouro Negro?

9/2/10 19:53  
Blogger arabica said...

Ao fim da 4ª leitura do teu texto-soberbo- percebi porque não tinha ela já cabeça: durissima a sua tarefa de servir em bandeja tudo quanto "tantos" lhe pediam. :))

Como não perder a cabeça?

Um abraço Legivelmente amigável.

10/2/10 08:42  
Blogger Rui said...

Tu estás como o Salema Garção: enganado. O Milo que eu sentei na esplanada do Café Guilhotina é o pai da mistura achocolatada para misturar no leite, que a Nestlé comercializa há já uns anos (desconfio que terá sido descontinuado por cá). É que nem podia ser outro: o pai da Milupa anda muito ocupado com a Branca de Neve (a farinha) à procura de uma nova mistura, e o Milo do Duo Ouro Negro não sai de casa há já tempo, desde que começou a ter sonhos em que o Raul Indipwo lhe aparece a cantar "vou levar-te comigo..."




O João pode sair da Meia-Laranja, mas a Meia-Laranja não sai do João.

10/2/10 10:53  
Blogger AnaMar (pseudónimo) said...

De cabeça perdida com a beleza irónica deste texto :-)

11/2/10 01:33  
Blogger Ruela said...

Brevemente estarei por terras de Almada ;)

12/2/10 00:41  
Blogger lélé said...

A Antonieta só ciranda e ganha fama, enquanto os trabalhadores, que andam com as mãos vazias de nada, fazem com que a coisa funcione!...


(Onde é que eu já vi isto?!...)

12/2/10 02:19  
Blogger mixtu said...

e na certa não tem aneis, fios, verniz, pinturas, cumpre o HACCP
yayay

abrazo serrano en paris, en breve, já volto

12/2/10 16:08  
Blogger Rui Fernandes said...

Só faltava a alusão aos perónios da Antonieta que também parece andar de perónio perdido.

Ainda bem que vim ler este texto que me fez rir à gargalhada em rédea solta e me desopilou da neura acumulada em dias cinzentos, molhados e aparvalhados de Carnaval. Acho que é desta que vou matar as saudades das minhas alfaias, curar a gripe ao ar livre e deixar-me de pausas...

... tirando as tuas, claro.

Um abraço.

17/2/10 17:39  
Blogger Alien8 said...

Gostei especialmente da parte em que é referida a homenagem da Alicia Keys, ela própria o surrealismo personificado. Mas isso são outras histórias, que não vêm aqui ao caso.

Caro Legível, mereces que te dê a conhecer uma explicação para esta eficiente empregada. Vale o que vale, vendo-a pelo mesmo preço por que a comprei, e outras banalidades do género:

"Ó grácil Antonieta,
Que pairas de mesa em mesa,
Não trabalhes tão depressa
Que ainda ficas sem cabeça."

Pois, ela não quis ouvir o conselho, e aqui está o resultado. Apesar disso, continua em ritmo alucinante, de forma que me ponho a adivinhar o que irá Antonieta perder a seguir...

Um abraço!

18/2/10 19:32  

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