O INOCENTE DO COSTUME (8)

Avaliou melhor a situação e decidiu-se pelo "Manuel dos Grelos". Igual a tantas outras casas de restauração nas ruas secundárias da baixa pombalina e de clientela mais ou menos volante, dificilmente o reconheceriam das arruadas recentes pela capital uma vez que, desde essa altura, não tinha desfeito a barba e deixara crescer o cabelo que agora lhe tapava as orelhas. E aproveitaria para aparar as sobrancelhas que tanto gostava de arquear num tique de sobranceria, no salão de cabeleireiro unisexo, contíguo à casa de pasto. O "Atira-te ao Rio... " ficaria para mais tarde, talvez quando aqueles edifícios desactivados, à beira-d´água, e em permanente risco de desabar sobre a cabeça dos passeantes, acabassem por ruir por iniciativa(?!) própria. Ligou para o número que vinha na imagem e respondeu-lhe uma voz feminina no idioma de Lord Byron com indisfarçável sotaque beirão. A campanha do executivo de pôr os portugueses a falar inglês pelos cotovelos, estava a resultar, raciocinou, solicitando de imediato «Mesa para quatro, dia tal, às tantas horas. Sim, eu sei que é o meu secretário que costuma fazer as marcações, mas hoje deu-me uma de cidadão comum.» Despachou em grande velocidade uma associação de amigos do hóquei sobre o gelo, de Marvila, e uma companhia de circo nipónica, com elefantes trombudos e hienas sorridentes, que pretendia assentar arraiais no Intendente, na quadra do Natal. Esfregou as mãos (gesto que preludiava o início de aturado trabalho intelectual ou a impaciência sôfrega de atacar uma travessa de bacalhau com todos) e atirou-se à tarefa de enviar convites aos outros personagens desta história. Sorriu inigmaticamente e, sem se preocupar se o gabinete estava ou não, minado de escutas, disse para si, em alta-voz «Então a perseguirem-me?! Quando perceberem que um dia destes será o dia do cacador... » enervando-se logo a seguir por ter dado conta, tardiamente, que não tinha cedilhado o c de caça. Recompôs-se e consultou a lista de e-mails que o autor da história lhe tinha cedido previamente. O primeiro a ser enviado teria como destinatária Eunice, sua desconfiada esposa.
Continuará, até que os dedos me doam.
2009. Texto e foto de Alberto Oliveira.






