Saturday, May 17, 2008

E SE A DÚVIDA NÃO NOS ASSALTA?





Logo após a primeira refeição do dia meteram pés a caminho explorando rua após rua, avenida após avenida, a cidade desconhecida. Andarilhos experimentados, sentiam-se tão à vontade numa urbe nunca antes visitada, como se ela fosse aquela de onde -por força das circunstâncias (ou do destino?), faziam a sua vida rotineira e ponto de partida para a descoberta de outras urbes, onde por força de conjunturas (ou dos acasos da vida?), se cruzariam com gentes praticando idênticos (ou quase) actos de rotina e desejosas também elas de partir à descoberta de
é curioso verificar que, ao viajar, acabamos inevitavelmente por voltar ao ponto de referência inicial, sem ter forçosamente de regressar ao sítio de partida. Bom... tenho de confessar que este foi o argumento que tinha mais à mão para ganhar algum tempo e tentar perceber porque motivo parti para um texto que anda a viajar à volta de si próprio.
outras cidades. Para alcançar o centro pelo trajecto menos longo, teriam de percorrer uma rua secundária, sem movimento e de edifícios sombrios. Dois quarteirões vencidos e avistaram (saido não sabem de onde) mais à frente e numa zona descampada, um indivíduo de aspecto corpulento, parecendo esperá-los. Arquimínio respirou fundo e trocou um olhar de entendimento com Heliodora "Passamos para o outro lado da rua ou continuamos neste? é que não tenho dúvida que estamos metidos num grande sarilho", sussurrou continuando a olhar em frente. Ela estremeceu "Se não me tivesses dito nada, eu continuava a duvidar. Agora, tenho o coração mais apertado que aqueles sapatos que comprei para a passagem do ano que me me disfarçavam o tamanho dos pés". Decidiram continuar pelo mesmo caminho. Quando chegaram ao pé do homem este barrou-lhes a passagem "Não temam. Apenas vos quero pedir que, quando regressarem ao vosso país, façam sentir a quem tirou esta fotografia que bem podia ter prevenido que o ia fazer. Teria desfeito a barba, vestido outra roupa mais apresentável e na dúvida... assaltava-vos os pensamentos."

Berlim, 2007. Texto e foto de Alberto Oliveira.

Monday, May 12, 2008

O DOLOROSO DESTINO DE SER DECORATIVO








"E se nos deixássemos de rodeios e déssemos um valente mergulho no Spree ?" perguntou o cavalo que tinha o secreto sonho de um dia poder vir a ser marinho, ao cavalo que tinha a certeza de ser tímido -e por isso mesmo, apenas permitia que lhe fotografassem a extremidade do focinho. "Não estás bom da cabeça! Como se sentiriam as pessoas que já se habituaram a apreciar-nos ornamentando esta protecção sobre o rio? Defraudadas, claro. E na nossa ausência, que hipótese teríamos hoje de ilustrar um texto na blogosfera? Nenhuma, é evidente." O equídeo que perseguia o sonho de vir a ser cavalo-marinho, não queria acreditar no que ouvia do seu tímido parceiro "Desiludes-me. Além de te ser difícil assumires a condição de cavalo por inteiro, conformas-te com a condição de mero objecto decorativo. É por cavalos como tu -de limitados horizontes e garupa encolhida, que nos trazem sempre à rédea curta. Pois fica, que eu escolho atirar-me ao rio." E se bem o relinchou, melhor o fez: rasgou os ares num salto perfeito ao encontro da utopia. Uma criança que passeava pela mão da mãe, gritou na inocência dos seus quatro anos "Mamã! mamã! vi um cavalo a voar!!" A mulher olhou-a enternecida "Eu sei que tu és uma menina com muita imaginação, mas não deves ser teimosa: já te disse mais que uma vez, que neste rio só há cavalos-submersíveis".
Berlim, 2007. Texto e foto de Alberto Oliveira.

Thursday, May 08, 2008

DAS VERTIGENS







Arrependeu-se assim que o balão se afastou do solo meia dúzia de metros e, logo depois, as casas parecerem construções de legos e as pessoas formigas. Quando uma águia enorme lhe passou em voo rasante rente ao nariz, tremeram-lhe as pernas e deu graças pelo bicharoco não ter sonhado que esteve a centímetros de um lagarto convicto, testando os níveis de coragem de voar sem asas. No interior de uma grande nuvem branca, imaginou-se pálido e defunto, preparando-se para o interrogatório de prestação de contas ao Divino, ele que carregava na consciência, um considerável peso de dívidas e de outros pecados de difícil avaliação. Um companheiro de viagem perguntou-lhe se estava tudo bem com ele. Saindo enquanto o diabo esfrega um olho, da prova celeste, respondeu que "Sim, estou muito bem. Em terra firme." Não fez caso de quem o preveniu que devia ter vindo bem agasalhado, que nas alturas a temperatura não era pera doce e agora batia os dentes de frio, agarrado com unhas e dentes ao rebordo do cesto de vime da máquina voadora de ar quente. Quando o piloto fez sinal que iam descer e o balão estremeceu, nem quis olhar para baixo: sofria de vertigens com vertiginosa frequência. Abriu os olhos devagar, depois do embate um tudo nada violento com o chão. Estava sentado num banco de jardim e segurava nas mãos um livro de banda desenhada. Como quem não quer a coisa, aproximei-me e li por cima do seu ombro, o título da capa "Arsénio: de vertigem em vertigem". E apreciei o desenho de uma figura masculina -que dava ares do homem sentado no banco do jardim , agarrada com unhas e dentes ao rebordo do cesto de vime do balão de ar quente e, um outro balão (este sem cesto de vime) onde se encontravam dentro as palavras de Arsénio "Sim, estou muito bem. Em terra firme."
Berlim, 2007. Texto e foto de Alberto Oliveira.

Saturday, May 03, 2008

AS ÁGUAS DE TODOS OS RIOS






O Tejo tem-no acompanhado desde que abriu os olhos para o mundo. Talvez por isso, dificilmente conceberia viver nalguma cidade, vila ou aldeia que não fosse banhada por um rio. Depois, há também a questão estética não menos importante: haverá cenário paisagístico mais agradável para os olhos que as águas de um rio a bordejarem casas, estradas, montes ou vales? Não há, rebate ele, sem esperar por opiniões divergentes daqueles que por força de circunstâncias diversas têm com a água uma relação mais ou menos distante. Remígio, é daqueles que não se ensaia mesmo nada para passar uma tarde de um dia de lazer, a andar de cá para lá no barco que une as duas margens da Grande Lisboa, mirando e remirando sonhador as águas que lhe passam à frente do nariz vindas da lezíria e com encontro marcado com as do Atlântico, logo ali à saida da barra. Ele sabe que é alvo apetecível para o riso dos marinheiros do cacilheiro e que entre eles, é conhecido pelo Infante Don Henrique do Cais da Rocha, onde alguns já o viram olhando na direcção do Bugio. Mas finge que não percebe. Ontem, de regresso à capital e com a embarcação a fazer a manobra de acostagem ao cais do Cais de Sodré, dei por ele ao meu lado e não me contive "Desculpe a ousadia, mas você não se estafa de olhar o rio com tanta insistência?". Não consegui ler no seu rosto qualquer enfado quando me respondeu "E você não se cansa de escrever sobre pessoas procurando adivinhar o que lhes vai na cabeça?".
Rio Vltava, Praga, 2007. Texto e foto de Alberto Oliveira.

Monday, April 28, 2008

MANHÃS

Ganimedes levantou-se de um salto. Não era daqueles que acordados por um despertador -estratégicamente adiantado cinco minutos à hora real, ainda ficavam, pelo menos outros tantos, protegidos pelos familiares lençóis, procurando recordar pormenores de sonhos (e pesadelos, que estes são em maior quantidade nos conturbados tempos que se vivem) ou indo buscar coragem onde ela não existe, para enfrentar as duras realidades de um quotidiano que teima em repetir-se sem o sal nem a pimenta de vivências apenas possíveis a quem nasceu com o rabo virado para a lua. Não. Ele era pão-pão, queijo-queijo: chegava a hora de dormir, deitava-se. Na de acordar, levantava-se. Sem mais delongas. Cacilda, sua esforçada companheira, costumava observar: "Tu tens no leito, apenas uma posição: deitado. No chão, o jeito de estares sempre levantado." Conformada, dedicara-se nos últimos tempos à rima, uma vez que o marido na posição horizontal, entregava-se ao sono de alma e coração. Mas o despertar desta manhã, estava a ser no mínimo, invulgar: os acordes da rotineira marcha musical, não provinham do relógio-despertador no quarto do simpático casal. Na rua, passavam dois homens tocando tambor e pífaro. Da janela, Ganimedes observando-os, espantou-se "Cacilda! Com este barulho, até o Florival das Finanças, que está em coma há dois meses, vai acordar e chegar a horas ao emprego!"


Valência, 2007. Texto e foto de Alberto Oliveira.

Saturday, April 19, 2008

O HOMEM, O TEMPO E O MODO








Aproveitando uma aberta da chuva que faz jus ao provérbio que popularmente define o mês de todas as esperanças em melhores tempos, o homem escolheu um banco do jardim deserto e nele acomodou a saliência abdominal (e todas as restantes saliências físicas) sobre o assento onde por norma se sentam traseiros dos mais variados formatos e procedências. Notarão os leitores -assim a visão e a memória vos seja propícia, que é a segunda vez em curto espaço de tempo, que por aqui -e pelos desígnios da escrita, se descrevem dois homens em idêntica posição corporal . Que isso não concorra para efabulações diversas e fantasiosas sobre as apetências descritivas do autor, das suas personagens ou do seu género, pois é de mera coincidência que se trata. Mas voltemos ao nosso homem, pessoa que dá igual uso a um banco público como antes dava a uma cama, frequentador assíduo de jardins imaginários, de corpo marcado por muitos temporais e de ouvidos cheios de esperanças não concretizadas. Deitou-se hoje aqui, espaço virtual de realidades ficcionadas e pediu-me para lhe tirar uma foto. Que "... era para a posteridade. Para que os vindouros, vissem como era o rosto de um homem desocupado pela força das circunstâncias?! e que nada tinha para dar porque tudo lhe tinham tirado." Fiz-lhe a vontade no que se refere à fotografia mas não lhe apanhei a cara. É que há sempre uma secreta esperança, não é?
Praga, 2007. Texto e foto de Alberto Oliveira.

Monday, April 14, 2008

(DES)ACORDO COM SOTAQUE






Com a rotunda barriga aterrissada sobre a toalha azul que não o impedia de sentir a frialdade da areia, as mãos a apoiar o queixo e o olhar divorciado do sobe-e-desce das oceânicas ondas, perguntava-se agora porque razão tinha enfiado a família na carrinha wolkswagen e rumado à Fonte da Telha. Nem a meteorologia previa um domingo de sol à bessa, nem os valores da temperatura máxima se situavam -pelo menos, ao nível dos derradeiros dias de uma Primavera à séria, que de primaveril só tinha tido o nome. Pior ainda, a decisão de zarpar fôra tão rápida, que Amândia -sua dedicada companheira, nem tempo tivera de comprar rissóis e cervejas para os adultos e picolés para a gurizada. (Valeu a solidariedade do autor do texto, e a passagem pelo local, oferecendo duas loirinhas do seu harém privado -que se distiguem na imagem, para os mais encalorados.) Lentamente, deixou-se vencer pelo sono. E sonhou que jogava futebol (o seu esporte favorito), a areia da praia era agora um gramado cor da esperança e driblava toda a família -qual Ronaldinho Gaúcho, para logo a seguir rematar ao gol. Era um celebrado e bem pago artilheiro... Saiu na hora, antes mesmo do apito final, para receber a ovação da torcida. Na cabina, depois de uma revigorante ducha, vestiu seu terno azul de campeão. Foi neste momento do sonho que, com ternura, Amândia o acordou "Vamos andando Indalécio, que não tarda nada, cai uma carga d´água que até os cães a bebem de pé." Ele piscou os olhos, olhou o céu cinzento, sorriu e disse "Que bobagem! Sonhei que era consultor da Vodatronix e embora não ganhasse ainda uma nota preta e tivesse muita dificuldade em apanhar o bonde para Sete-Rios, peguei um trabalho certo... " Ela sorriu condescendente "Mentes tão mal, mas de fato fica-te a matar esse sotaque."
Quarteira, 2007. Texto e foto de Alberto Oliveira.