Thursday, November 19, 2009

O INOCENTE DO COSTUME (8)










Avaliou melhor a situação e decidiu-se pelo "Manuel dos Grelos". Igual a tantas outras casas de restauração nas ruas secundárias da baixa pombalina e de clientela mais ou menos volante, dificilmente o reconheceriam das arruadas recentes pela capital uma vez que, desde essa altura, não tinha desfeito a barba e deixara crescer o cabelo que agora lhe tapava as orelhas. E aproveitaria para aparar as sobrancelhas que tanto gostava de arquear num tique de sobranceria, no salão de cabeleireiro unisexo, contíguo à casa de pasto. O "Atira-te ao Rio... " ficaria para mais tarde, talvez quando aqueles edifícios desactivados, à beira-d´água, e em permanente risco de desabar sobre a cabeça dos passeantes, acabassem por ruir por iniciativa(?!) própria. Ligou para o número que vinha na imagem e respondeu-lhe uma voz feminina no idioma de Lord Byron com indisfarçável sotaque beirão. A campanha do executivo de pôr os portugueses a falar inglês pelos cotovelos, estava a resultar, raciocinou, solicitando de imediato «Mesa para quatro, dia tal, às tantas horas. Sim, eu sei que é o meu secretário que costuma fazer as marcações, mas hoje deu-me uma de cidadão comum.» Despachou em grande velocidade uma associação de amigos do hóquei sobre o gelo, de Marvila, e uma companhia de circo nipónica, com elefantes trombudos e hienas sorridentes, que pretendia assentar arraiais no Intendente, na quadra do Natal. Esfregou as mãos (gesto que preludiava o início de aturado trabalho intelectual ou a impaciência sôfrega de atacar uma travessa de bacalhau com todos) e atirou-se à tarefa de enviar convites aos outros personagens desta história. Sorriu inigmaticamente e, sem se preocupar se o gabinete estava ou não, minado de escutas, disse para si, em alta-voz «Então a perseguirem-me?! Quando perceberem que um dia destes será o dia do cacador... » enervando-se logo a seguir por ter dado conta, tardiamente, que não tinha cedilhado o c de caça. Recompôs-se e consultou a lista de e-mails que o autor da história lhe tinha cedido previamente. O primeiro a ser enviado teria como destinatária Eunice, sua desconfiada esposa.
Continuará, até que os dedos me doam.
2009. Texto e foto de Alberto Oliveira.

Wednesday, November 11, 2009

À MESA TUDO SE RESOLVE ? (7)










Com tanta perseguição, pouco tempo lhe sobrava para fazer aquilo que mais gostava: dar passeio às pernas e aos olhos pela beira-rio. Hoje, mandou às urtigas, os cuidados de olhar de soslaio para quem lhe ia na peugada e deu consigo a ver as vistas. A Praça do Comércio que continuava a não fazer jus ao nome, não comercializando absolutamente nada e se mantinha firme no primeiro lugar do ranking das "obras dificilmente concluidas em tempo útil", arrebatado recentemente às de Santa Ingrácia, dava ideia de um mega set da sétima arte, dirigido por nomes oscarizados na arte das derrapagens em grande velocidade. Surpreendeu-se uma vez mais, com a largura que rio agora apresentava. Num autêntico golpe de mágica, Cacilhas estava a um palmo de distância da margem onde se encontrava. Aquela tinha sido a solução financeira mais económica encontrada pelo executivo, sendo que assim, as pontes de grande envergadura deixavam de fazer sentido, uma vez que a travessia a nado seria uma opção de grande alcance social e desportivo. É verdade que foi o cabo dos trabalhos para retirar água ao leito do Tejo, mas com a ajuda da população sénior do distrito de Setúbal - com a sua inestimável experiência de vida - e das crianças das escolas da Grande Lisboa - mais os seus baldinhos de praia - a coisa fez-se, pela primeira vez e no âmbito das obras públicas, no prazo pré-estabelecido. Em Alcântara, a canção que pairava nos ares daquele bairro ( "A carga pronta metida nos contentores/adeus aos meus amores que me vou/ p´ra outro mundo... ") trouxe-o ao mundo que o atazanava nos últimos dias. E teve uma ideia: porque não organizar um almoço no "Atira-te ao Rio e Diz que te Encharcas" com seguidores e perseguidos desta história e onde tudo se deslindasse? Jesualdo* (Bibi para os familiares mais chegados) já tinha na cabeça o convite-chave para o repasto: "ou comem todos ou... ".

*Por imperdoável lapso, na imagem não se distingue claramente a figura de Jesualdo. Ele está totalmente encoberto pelo homem de camisa azul e calças negras (à direita da foto) que se encaminha na direcção do Mosteiro dos Jerónimos.
Continua no próximo texto.
2009. Texto e foto de Alberto Oliveira.

Wednesday, November 04, 2009

EM DEFESA DA HONRA (6)









Um destes dias, em conversa de circunstância com um vizinho, Jesualdo ficou a saber que o seu nome era referenciado na blogosfera. Após ter matado o bicho da curiosidade - não fosse ele homem de convicções fortes - também se teria matado, porque o que leu àcerca de si, apenas se poderia classificar de uma miserável infâmia. Revoltado, reuniu no Martinho das Arcadas, familiares, amigos e conhecidos e relatou o que tinha lido. Foi sereno no início, emocionou-se no meio e irritou-se depois. Quando ao concluir - na torrente de argumentos, afirmando-se marido exemplar - interrogou «vocês estão a seguir-me?» e a plateia em uníssono aquiesceu, abriu os braços desalentado. Anónimo entre a assistência, o autor destas linhas também não achou graça nenhuma ao coro afirmativo, porque, seguramente, calculou cerca de cinquenta pessoas a seguirem Jesualdo. O que quereria dizer que esta história se arrastaria até finais de dois mil e dez... Quem a imagem não mostra (por absoluta falta de espaço) são as faces ocultas de Eunice*, Lídia** e Alípio** (entre outras faces ocultas de outras histórias não ficcionadas), que se encontram, respectivamente, nas décima, décima primeira e décima segunda arcadas, a seguirem-se entre si.
*Eunice, esposa de Jesualdo (para quem começou agora a ler a história) foi naturalmente convidada mas "escusou-se" argumentando cansaço pela viagem a Freixo-de-Espada-Curva, onde esteve na noite de Halloween a distribuir chicletes e mordeduras. Está feita uma seguidora nata.** Lídia e Alípio são mais para os queques e bolos-de-arroz .

Continuamos, não é verdade?

2009. Foto e texto de Alberto Oliveira.

Wednesday, October 28, 2009

SEMPRE A SEGUIR (5)

No dia em que Alípio -que seguia Lídia, que por sua vez seguia Eunice e esta que seguia Jesualdo,decidiu deitar-se sobre o texto anterior (na forma de um relvado propício à meditação) desta história feita de seguimentos, acabou por adormecer. Quando abriu os olhos não queria acreditar no que via: dezenas de pessoas (senão largos milhares) ocupavam agora o espaço verde conversando animadamente e parecendo aguardar que, a todo o momento, algo de extraordinário acontecesse. Congeminou Alípio, que sem saber ler nem escrever, estivesse envolvido num daqueles famigerados piquenicões, com artistas das cantigas , convidados a partir os corações de tão expectante plateia. Mas reconhecendo que as suas congeminações raramente se cruzavam com a realidade, porque não supôr uma situação mais prosaica: que entre tanta gente, alguém o estaria a seguir? Estremeceu à suposição, ele que era um predestinado para seguir alguém mas um zero absoluto quando se sentia seguido. Procurando não se fazer notado, ligou para o autor da história «Você está a arranjar-me um problema dos antigos com o prosseguimento desta cena. Não consegue recriar uma diversão de modo a que me pisgue daqui sem dar nas vistas?» Depois de um curto silêncio, ouviu a voz do autor «Já somos dois com problemas, meu caro! Também eu gostava de saber como é que vou dar continuidade a uma história, da qual já nem recordo o seu início. Fique neste texto mais um pedaço, que hei-de contactá-lo. E não faça nenhum disparate!» Embora contrariado, Alípio acedeu. Manteve-se deitado - agora de rabo voltado para cima - e cobriu a cabeça com um jornal diário que titulava em letras gordas na primeira página "O caso do Best Seller: Caim ilibado, Abel com três jogos de suspensão" e "Jesus revela os milagres da Luz".

Continua... prosseguindo.

2009. Texto e foto de Alberto Oliveira.

Wednesday, October 21, 2009

DEITADO DE COSTAS COM O RIO À FRENTE (4)







Alipio não era ingénuo. Sabia que seguir Lídia - uma antiga e experimentada meia maratonista medalhada nos jogos de Albufeira by night, retirada precocemente por via de uma arreliadora lesão na abóbada palatina - pelas ruas de uma cidade acidentada como Lisboa, seria quase um suicídio. Assim, e num momento de maior aglomeração de peões, aproximou-se da jovem e, sub-repticiamente, num movimento hábil que leva mais tempo a descrever que a fazer, introduziu-lhe na mala um minúsculo isqueiro que era, nada mais nada menos que um avançado localizador pessoal por satélite, oferta simpática dos seus inestimáveis amigos e companheiros de aventuras Daniel Craig e Pierce Brosman, numa noite de perigos constantes no Boom Boom Club sediado no laborioso Cais do Sodré. Deste modo, teria tempo para dar descanso ao corpo, depois de umas férias desgastantes de dois meses em Salvador da Bahia. Voltou atrás no tempo e a um encontro escaldante há uns anos atrás, naquela zona da cidade e decidiu que seria ali que "dormiria umas horas sobre o caso" em que trabalhava agora e que, apesar de todos os seus recursos e experiência não havia meio de lhe ver o fim. Quando chegou a casa nesse dia, Lídia ao abrir a mala, disse para o fecho éclair do seu vestido «É boa. Não fumo mas tenho aqui um isqueiro. O melhor é ir comprar tabaco... ».

2009. Foto e texto de Alberto Oliveira.

continua... de lado.

Wednesday, October 14, 2009

O RABO DA PERSEGUIÇÃO ? (3)









Nesse mesmo dia, Lídia - a jovem que se encontrava no texto anterior desta história, precisamente na esquina da transversal Rua dos Correeiros com a pedonal Augusta - depois de uma curta troca de palavras com o autor destas linhas, aceitou (não sem algumas reticências mas prontamente desvanecidas a troco da oferta de um rolo de "Papel de Fantasia" com dedicatória) em desprender o cabelo, pintá-lo de preto e guardar os óculos escuros na sua mala. Assim, menos possibilidade teria de ser reconhecida e, com facilidade, continuar a seguir os movimentos de Eunice. Jesualdo, tinha-lhe pedido um relato pormenorizado dos passos da sua mulher e prometeu compensá-la cedo e a boas horas. Lídia, uma anónima técnica contabilística camarária e leitora apaixonada de Patricia Highsmith nem pensou duas vezes: concretizava-se o sonho de representar o papel de uma personagem decisiva nesta psicológica e negra intriga. Tão empolgada perseguia Eunice, enquanto ao mesmo tempo consultava o gê-pê-ésse para decorar o caminho de regresso a casa, que nem se apercebeu, ser ela própria, também seguida (desde a Rua do Arsenal) por um indivíduo de óculos escuros fumados e camisa azul-nicotina.

Quem segue quem no próximo texto? Será este (texto) a cauda da perseguição?
Texto e foto de Alberto Oliveira.

Wednesday, October 07, 2009

A HISTÓRIA DESTA ESQUINA (2)










Jurou que havia de conhecer a verdade dos factos por muito que, eventualmente, isso a fizesse sofrer. Para passar despercebida a quem a pudesse reconhecer do texto anterior, usou um shampô que garantia uma cor três vezes mais brilhante ao cabelo louro (em sinal de aprovação, a sua gata Morgana, encandeada, piscou os olhos seis vezes), trocou a roupa casual por outra que não era tal nem deixava de o ser, apanhou o metro no Cais do Sodré, saiu na Baixa-Chiado e voltou a entrar num combóio cujo destino era... o Cais do Sodré. À segunda tentativa conseguiu chegar à estação dos Restauradores e, à superfície, percebeu que para ficar nas proximidades do edifício da Câmara, teria de voltar ao princípio. Retrocedeu, desta vez a pé, na direcção do Tejo. Resistiu à tentação de entrar numa sapataria (os sapatos eram a sua secreta paixão...) mas cedeu ao chamamento desafiante dos bolos na montra de uma pastelaria. Um babá e uma água depois, os acordes de "Just Around The Corner" no seu telemóvel, chamaram-na à realidade. Era Jesualdo mais o seu inconfundível registo de voz afectado, a pretender semelhanças com apresentadores de telejornais «Então onde anda a minha mais-que-tudo, que liguei para casa e não atendeu?» Eunice não perdeu um segundo a retorquir «E o meu amorzinho não se lembra que hoje é dia da sua amada comprar verduras, no Mercado da Ribeira? Não me diga que não consegue ouvir a senhora da banca das curgetes e tomates a gritar "quem me acaba o resto?!"? E o meu querido? Está a despachar despachos com o despacho que lhe é tão caro?» Ela registou que ele demorou a responder afirmativamente uns bons cinco segundos. Depois de desligar, teve a nítida sensação de que alguém, nas suas costas, a observava: voltou-se a tempo de reparar na jovem - encostada à esquina da tranversal rua dos Correeiros - que desviou rapidamente o olhar...
Continua com outro dígito.
Texto e foto de Alberto Oliveira.