Saturday, March 20, 2010

PAUSA PARA EXPLODIR DE ALEGRIA (11)









É notória a boa disposição que reina entre os portugueses. Os sorrisos de orelha a orelha, semelhantes àqueles que transparecem nos rostos dos três cidadãos - que a imagem documenta - enquanto aguardavam pela passagem do tempo sem a pressão quotidiana de consultar as horas, utilizando o banco corrido da paragem do transporte colectivo, são uma constante. Devo referir que, no momento em que lhes pedi autorização para os fotografar, as gargalhadas entre eles eram tão sonoras que me surpreendi deveras, de euforia tão inusitada. Até o meu meio-sorriso, que afivelo permanentemente para não destoar dos meus patrícios, se deixou contagiar pelo clima de alegria intensa e ri com gosto. Não me perguntem de quê, que por essa altura ainda não sabia. Deu-me para ali e chega, pois aprendi, nos tempos em que soletrava as primeiras letras, que um português para rir a bandeiras despregadas não precisa de ter motivo; basta ter vontade de fazer coro com os outros. É conhecida a lapidar frase "onde ri um português, riem dois ou três". Depois, se a curiosidade fôr muita (e de ensaiar muitos vocarizos) é que pergunta do que se estavam a rir os outros. E se por ventura, a coisa não tiver piada nenhuma, não deve desatar a lamentar-se. O pior que pode acontecer a um alegre militante é soltar o primeiro lamento. Neste país, recordo. A partir daí, nunca mais ninguém lhe consegue ver os dentes e os reparos, as queixas, as críticas, e a contestação, são o pão dele de cada dia. E se não houver coro, há que tomar a iniciativa, embora saibamos que os desmancha-prazeres das frases feitas pelam-se por encontrar um alegre militante a rir isolado e, aparentemente, a despropósito. "Muito riso pouco siso" é a palavra de ordem mais utilizada por um grupelho (nem sequer têm representação parlamentar... ) de portugueses descontentes com a vida e sempre prontos a um comovente choro convulso, um corajoso arrancar de cabelos ou pôr um fim (épico) à existência, numa linha de combóios desactivada. Estes três alegres cidadãos da fotografia - vim depois a saber - até tinham razões de sobra para rirem até às lágrimas. Tinham acabado de consultar num jornal diário a nova tabela de retenção na fonte do IRS.

25 Comments:

Blogger Fa menor said...

Olha, e não é verdade que 'tristezas não pagam dívidas'? então para quê andar de mal com o mundo? Este nosso Portugal até é uma comédia pegada!!!

Bom domingo e boa semana, com boa disposição :)

Bjos

20/3/10 20:59  
Blogger gabriela r martins said...

ehehehehehhehehehe

único e imprevisível ,como sempre!





.
um beijo

20/3/10 23:37  
Blogger Há.dias.assim said...

se não fosse a tabela de IRS seria outra coisa qualquer, ultimamente tudo o que acontece no nosso país ou dá para rir ou para chorar, em todo o caso mais vale rir.

21/3/10 00:42  
Blogger Rosa dos Ventos said...

Eu consigo rir a bandeiras despregadas (tenho que estudar bem esta expressão) mesmo sem vontade nenhuma e mesmo sem ver ninguém rir...
O teu post está divertido, de acordo com o contexto em que vivemos!

Abraço

21/3/10 13:29  
Blogger São said...

rrrsss rrss

Feliz semana. meu caro.

21/3/10 17:48  
Blogger Alien8 said...

Rir é o melhor remédio, dizem :)

Se bem que quando essas 3 letrinhas aparecem... assim tão maiúsculas e ameaçadoras... enfim, também podiam estar a rir-se do atraso do transporte... quem sabe?


Boa semana!

21/3/10 23:42  
Blogger Rui said...

- Ganda macaco - gritou o Bonifácio, tirando o indicador direito do nariz para o apontar ao televisor. - Ainda bem que você ainda não tem uma televisão daquelas em definição elevada - disse ele para o Baptista taberneiro .
- É... por enquanto, vou-me safando com a baixa indefinição televisiva.
- Olhem p'ráquele marmelo: ele é patada, marrada, cotevelada a torto e a direito. Leva todos à frente. E salta que nem um símio.
O ambiente na taberna era festivo e com o apito final tornou-se explosivamente alegre. Ergueram-se copos, brindaram-se vitórias, deram-se palmadas nas costas.
Um dos convivas encostou-se ao balcão e chamou a atenção do homem do balcão. Disse, apontando para um copo:
- Outra.
- Já é a segunda taça, Lucílio.
- Baptista, isto é só o começo.

22/3/10 12:29  
Blogger CCF said...

Uma acidez muito particular...e lúcida.
~CC~

22/3/10 22:04  
Blogger mixtu said...

o portugués é dado ao riso e ao choro...
aliás, só em portugal há arco-iris...
yayya
sol e chuva...

e pouco siso...

e espertos... muito espertos mas depois acabam por ser apanhados... ou pelo autocarro ou pela ASAE, yayaya

abrazo serrano

23/3/10 11:04  
Blogger pin gente said...

pois eu fui o 4º português a rir e ainda não parei ehehhehe

um abraço

23/3/10 12:12  
Blogger Lídia Borges said...

E não é que consegui rir?!

L.B.

23/3/10 12:23  
Blogger ss said...

muito bom.
:)

23/3/10 13:18  
Blogger Marta said...

Na situação que se atravessa, tudo serve para um bom riso...O pior é quando é até às lágrimas...Não se consegue parar....
Texto interessante, único...
Obrigada pela visita
Beijos e abraços
Marta

23/3/10 14:02  
Blogger arabica said...

Rir é a ironia do chorar convulso, que como a tosse convulsa, obriga às medidas mais drásticas, desde ter que arrancar os dentes para pôr uma bela placa da porcelana mais alva a ser cliente assíduo de cremes e poções anti rugas! :))

vamos-nos RINDO...

abraço :)

23/3/10 16:20  
Blogger Justine said...

Ironia afiada, Legível! Afiada, de dentes arreganhados e de garras de fora! É assim que a gente vai rindo...

23/3/10 17:51  
Blogger oxalá said...

E de que poderiam eles rir com tanto gosto e afoiteza que do irs?
Ora que tu!

23/3/10 20:54  
Blogger Joana said...

Acho que somos mais "queixosos" do que sorridentes.
Está sempre tudo mal, se não é das cruzes, é do tempo, é dos buracos na estrada, é do preço da gasolina...
Às vezes deviamos ter mais capacidade de nos rirmos de nós próprios.

Já do IRS... disso toda a gente se ri!
Rio, rio, rio para não chorar...

24/3/10 00:30  
Blogger lélé said...

Uma cena perfeitamente marxiana como essa* dá mesmo vontade de rir!

(Um dos compadres, de tanto rir, ia deixando fugir o Tarzan!...)

* dos irmãos Marx:
"Dizem que há um tesouro debaixo da casa aqui ao lado."
"Mas não há casa alguma aqui ao lado!"
"Ah, então vamos ter de construir uma..."

24/3/10 01:20  
Blogger © Piedade Araújo Sol said...

quem se encontra a rir agora sou eu.

belo poste.

um abraço

24/3/10 19:37  
Blogger MagyMay said...

... que nem consigo ler direitinho o post, que os olhos se me fogem para a paragem do "meu" metro de superfície com aquelas letrinhas "L A R A N J E I R O" ...
Há alguma dúvida, que aqui, nós rimos muito!!???
Rimos até às lágrimas, acreditem!!!

Abraços, abraços, abraços

24/3/10 23:06  
Blogger casa de passe said...

Caríssimo,

Vejo tanta gente a escrever coisas tão tristes. Bem mais alegremente escreveriam se todos o fizessem em papel de fantasia.


Ernesto, o avô

25/3/10 03:12  
Blogger Susaninha said...

Acho que o nosso Portugal anda meio contaminado com tristezas..
E com a tabela de retenção de IRS ENTÃO QUE MEDO...Mas gostei...

Vamos combater isso:)
SUUUUUrrisinhos:)

25/3/10 18:41  
Blogger Rui Fernandes said...

Meu caro amigo Oliveira.

Apraz-me comentar que vejo pela primeira vez o sr. Alberto a tratar de um modo sério um assunto cuja gravidade a todos nos assola.

Ao meu amigo Oliveira, pela certa, não lhe desagradaria ver o seu escrito ser considerado como uma das melhores páginas de sociologia sentimental respeitantes a esta Nação, descontando as observações assaz pertinentes de um Herculano, um Eça, de um outro Oliveira que também era Martins, ou mesmo um Pacheco Pereira, mas, que nesta matéria, nenhum se adentrou tão profundamente devido ao melindre da coisa e à complexidade das causas da decadência ibérica que, de certo modo, prefiguravam já a posição desconfortável da Grécia no seio (ou se preferirdes, nas tetas) da Europa.

O sr. Alberto, se todos bem repararam, esgrime a navalha dialéctica melhor que o Occam a trabalhar com a sua tesoura. Num país de bipolares, a alegria e a tristeza são a cara e a coroa onde a bisturi dialéctico enterra o seu fio. E o que dá para a euforia desmedida dá também para a languidez da merencoria muito sofrida.

Atento aos aproveitamentos oportunistas, o meu amigo Oliveira detecta precocemente a intrusão dos grupelhos de segunda ou terceira divisão, arrebanhados para militante manif na Praça do Rocio, já todos arvorados de frases-feitas, clichés, palavras de ordem (tipo "daqui ninguém arreda o pé!") cujas motivações inconfessas são, além do perturbar a ordem pública, a de impedir a sã análise das realidades nacionais.

Mas o sr. Alberto é intransigente na sua intransigência de querer saber o porquê das coisas e indaga o porquê dos porquês. E descobre, pela consulta casual de um jornal diário, que os portugueses ainda consultam os jornais diários.

Não o diz, mas o meu amigo Oliveira certamente pensou que em Portugal dá para chorar consultar o psiquiatra e dá para rir consultar o jornal. Imaginem só um psi a explicar a nova tabela de retenção na fonte do IRS! Seria o primeiro a procurar uma linha de comboios desactivada.

Mas o que o sr Alberto escamoteou, e não posso deixar em branco este lapso, é o lugar onde se encontravam os bem dispostos congressistas: LARANJEIRO. Até que ponto não poderá este facto negligenciado explicar muitas das gargalhadas tão sonoras que ali foram ouvidas.

O meu amigo Oliveira, que não dá ponto sem nó, sintetizou tudo, o que disse e o que não disse, numa expressão fulminante: "explosão de alegria"!

... A combinar com a "explosão de perfume" da flor de laranjeira.

Tenho dito.

(que não é bonito... Etc.)

26/3/10 19:20  
Blogger ~pi said...

pois, isso do muito risos pouco siso

vem ao de cima - é um ponto chave na nossa alegre maneira de ser :)

quando estamos quase-quase a explodir de riso........

lá vem a censura ancestral
acerta-o-passo!!

conheço miles de gente que nunca se piu, liu, perdão rio, ai pois, não, não, riu

assim é que é :)





~

30/3/10 12:15  
Blogger ~pi said...

beijo com MUITO riso :))






~

30/3/10 12:16  

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