Monday, October 29, 2007

O MENINO E O TATU















Era uma vez um menino que gostava imenso de animais. Toda a espécie de animais, melhor será acrescentar, para que se possa ter uma ideia mais precisa, até onde ia a sua paixão por eles. Mas sabemos que no amor em grupo (não, não é isso que estão a pensar ou sou eu que não estou a deixar passar a mensagem como pretendia) não podemos distribuir por todos, igual tratamento e com o mesmo grau de intensidade. E era isso que se passava naquele parque -onde o verde da relva era mais verde que o feijão da mesma cor e o arvoredo tão frondoso que dificilmente se poderia garantir se o dia estava a dar o lugar à noite ou se a noite se apossara à falsa fé do dia, e coabitavam os mais incríveis e exóticos animais, como, por exemplo, os pombos e as formigas -para citar ao acaso dois desses inestimáveis e fabulosos seres. Ora acontece que, a quem o menino mais atenção começou a dispensar, foi a um vulgaríssimo tatu. O processo de aproximação foi algo lento, mas porque o bicho demonstrava pelo seu aspecto esquelético que passava fome de rabo, três dias, duas maçãs tocadas e a ameaça de pôr no ar uma canção do Toy, foram o suficiente para o ver ir comer à mão da criança. Só que esta, ingenuamente, desconhecia que se há bichos que levam as palavras à letra, o tatu é o rei (a história passa-se num jardim de regime monárquico... ) deles. E ainda as maçãs tocadas do quarto dia não tinham sido trincadas nem a instalação sonora do jardim deixava ouvir as notas do concerto número dois em fá maior de Johann Sebastian Bach, já o tatu (quem sabe, seguindo também à risca as indicações da sua tábua de alimentos) tinha papado num ápice a mão esquerda do surpreendido menino que a partir desse dia nunca mais quis ver um animalejo daqueles à sua frente... nem aos lados. Atrás, distinguem-se na imagem o reporter Franz Joseph e o operador de camera Karl Schmidt a cobrir o acontecimento para o Fantasy Channel.


Berlim, 2007. Texto e foto de Alberto Oliveira.

19 Comments:

Blogger Rui said...

- Olha, um Tatu - diz o Karl ao Franz.
- Não sabia - responde o Franz ao Karl.
- Hã?
- Que tinhas.
- Quê?
- Nunca me tinhas dito.
- O quê?
- Que tinhas uma.
- Uma quê?
- Tatu.
- Olha ali - apontando para a mesa no jardim.
- Pobrezinho.
- Hã?
- O rapaz, sem mão.
- Ah, sim. Coitado. Devias filmar...
- Onde a tens?
- Aí atrás.
- Posso?
- Claro! Sabes que comigo estás à vontade.
- Oh - diz, algo surpreendido.
- Ei, que estás a fazer?
- À procura dela.
- Nas minhas costas?
- E que costas formosas tu tens.
- O quê?
- Mas não a vejo.
- Pára lá de me apalpar e tira-a do saco.
- Do saco?
- Sim, a câmera está no saco do costume.
- Mas não estás a falar da tatu?
- Tatu?
- Sim, da tatuagem. Não tens uma nas costas?

Depois desta conversa, custou menos ao rapaz a falta da mão.

30/10/07 23:49  
Blogger inominável said...

nem vais acreditar, mas não faço ideia de onde está esta escultura... Tiergarten? Lustgarten? estou perdida...

eu acho que o Tatu não comeu a mão de um menino desprevenido: o menino, vendo o Tatu esquelético, ofereceu-lha voluntariamente... o Tatu ainda tentou negociar (preferia a outra mão, que tinha melhor ar e menos uma unha encravada) mas acabou por ter que ticar com aquela... a mão dada não se olha a unha!

31/10/07 08:22  
Blogger isabel mendes ferreira said...

e era uma vez um menino que tinha o dom raro de construir histórias a partir de um pouco de nada...o que me deixa "doida" de inveja"...


beijo "abunganviliado"...:))))

com pétalas seguras...para segurar a raiz ...:)

31/10/07 17:36  
Blogger JPD said...

Tatu(do)maluco!
Ingrato
Insaciavelmente egoista.

A mistura de sabores de uma maçã e de uma mão (mesmo a mais tenra de criança)é uma manifestação de ancestralidade e de péssimo gosto.

Reprovável!

Animal sem tat(u)o!!!!!!!!

Um abraço para ti Alberto

31/10/07 22:42  
Blogger Gi said...

Hum ... foi daqui então que surgiu a célebre frase "mordeu a mão que lhe deu de comer". Traidor .

Mas também não há uma frase qualquer que diz "Se alguém te ferir numa mão, dá-lhe a outra " ? O menino não deu, merecia ta(u)t(a)u.

Agora mais a sério, não conheço a estátua nem a história. Conta aí que sou curiosa.

Beijinhos

(a abóbora tem resposta em verso :) )

31/10/07 22:50  
Blogger ~pi said...

pela cara do menino...

...está a convencer o tatu

a devolver-lhe

a mão!!



:)

31/10/07 22:54  
Blogger un dress said...

na verdade a esta hora só me vem à ideia...TATOO YOU...e por aí assim :)

de certeza que foi de ler o rui :)

mas o menino tem um ar circunspecto!!

pudera!



abraÇo.beijO.Bom tempO.............

1/11/07 02:15  
Blogger Velasquez said...

belos textos:)

posso pedir um pequeno favor?

é possivel fazeres um postzinho a divulgar o lançamento do meu livro na fnac do algarve?

thanks!

ta td aqui:

www.tiagonene.pt.vu

usa a imagem e o link da pagina;)

e claro, se quiseres, .. um poema:)

abraço

1/11/07 22:30  
Blogger Ruela said...

tá demais ;)

3/11/07 00:29  
Blogger segurademim said...

... o menino o tatu e mais uns pássaros atrevidos, continuam a brincar e a conviver uns com os outros indiferentes aos adultos curiosos que passam

de vez enquando olham a cúpula da catedral e pestanajam com a claridade e os raios do sol de inverno que penetram no verde intenso das árvores do jardim

3/11/07 10:42  
Blogger nana said...

obrigada pela maneira como mo fizeste saber - sabe tão bem ouvir histórias contadas desta maneira... mesmo se o final não é propriamente feliz.


e obrigada por tua presença em minha praia de marulhos...

mesmo.

3/11/07 13:16  
Blogger sobre-nada said...

Contando estórias reinventas o "mundo".

3/11/07 19:17  
Blogger lélé said...

comeu mão de menino, é pedófilo ou comunista comedor de criancinhas ao pequeno almoço... uma bonita homenagem à unificaçao das duas Alemanhas...

4/11/07 02:53  
Blogger Licínia Quitério said...

Eu tive um amigo que gostava de me cumprimentar assim: "Come tá tu?"
Se eu, na época, conhecesse a história, esconderia aflita as minhas mãos.

Moral da fábula: Os ignorantes são bem mais felizes.

E tu come tá?

Beijinho.

5/11/07 11:48  
Blogger L.Reis said...

Ainda não completamente recuperada da morte do Deodato(por quem ainda, amiúde, suspiro) venho encontrar um tatu comedor de mãos de criancinhas, ainda por cima daquelas criancinhas Dickens: "boas" e "inocentes" e que adoram animais...é triste! Mas onde estavas tu quando andaram a contar aquelas histórias onde todos eram felizes para sempre e até os sapos eram belos príncipes?! Hein!? Hein!?
Mas eu perdoo-te, porque alguém que promove um encontro entre o Toy e o Bach no mesmo texto, tem direilto ao meu mais profundo respeito e admiração. Lindo!! :D

5/11/07 12:06  
Blogger Suzi said...

acho que todos já teceram comentários honrosos à capacidade criativa do texto, aliás, do autor do texto.
faz tempo que não venho por aqui; e agradou-me deveras a leitura!
grande abraço, legível!

5/11/07 15:24  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Linda estória para uma imagem horrível...


CSD

11/11/07 19:32  
Blogger APC said...

No Tatu, que fica ali ao Campo Grande e já foi um local de referência em tempos idos, também podemos ver agora vários animais exóticos. Na esplanada não, que até os animais de estimação estão proibidos de lá estar, de acordo com o mui gentil catrapázio que o dono ali pregou para toda a gente ver. Mas lá dentro, aí sim, é que é ecologia... É ver as baratinhas à solta, calcorreando, felizes, as paredes, rumo ao aparelho de ar condicionado arruinado, onde se abrigam, agadecidas pela vida de raínhas que ali levam (é um restaurante monárquico, também).

:-)

PS - Perturbadora, essa escultura. Podes explicar?

23/11/07 01:33  
Blogger legivel said...

.++

30/10/08 21:55  

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