Thursday, October 25, 2007

JOGOS DE ESPIÕES E DE AZARES
















... no dia seguinte, apenas o leitor mais atento (ou aquele que não deixa nenhuma página do jornal por devorar - da publicidade às cotações bolsistas,) podia ler uma pequena notícia no Berliner Zeitung "... nesta cidade, foi atropelado mortalmente pelo metro de superfície, um cidadão espanhol natural de Lisboa e com residência no Sardoal, aparentando cerca de cinquenta anos. Estava armado com uma pistola de água, usava peúgas brancas, calças pretas e uma t´shirt com o número treze nas costas. Uma testemunha ocular, referiu o comportamento estranho do homem que, afirmou, caminhava aos zigue-zagues ao encontro do veículo que o apanhou, na transição de um zague para um zigue. Outra testemunha -esta de Jeová, disse ter a certeza -quando o abordou oferecendo-lhe literatura religiosa, que ele a ofendeu grosseiramente no idioma somali. A embaixada espanhola creditada em Berlim, não comenta o assunto e o corpo de Deodato Francisco (é este o nome que consta num livro de recibos verdes de prestação de serviços de canalização), aguarda que alguém o venha reclamar." O que o jornal alemão não informava -por desconhecimento, é que, no preciso momento do acidente, um indivíduo de chapéu e gabardina preta de gola levantada, apanhou do chão, junto à máquina de refrigerantes, um saco de plástico que aparentemente poderia conter lixo. Do interior retirou um dvd onde -em minúsculas letras se conseguia ler "Clementina: a bomba sexual do ocidente"



Berlim, 2007. Texto e foto de Alberto Oliveira

30 Comments:

Blogger Rui said...

Deodato passou os dedos pelo cabelo que não tinha. O confronto inesperado com parte do seu passado que, a custo, tinha conseguido esquecer, deixou-o lívido e sem pinga de sangue a sul do diafragma. O homem atrás do balcão, que o observara pelo circuito interno de vídeo, veio em seu auxilio.
- Está pálido, mein herr. Viu um fantasma?
Deodato nada foi capaz de dizer e o empregado da Sex Shop amparou-o até uma cabine, onde o sentou num banco de napa vermelha, muito coçado e húmido.
- Diga alguma coisa, mein herr.
Nada. O homem, mais conhecido em Berlim por Gimenez, foi incapaz do mais pequeno gesto: se o coração lhe batia ainda, era por pouco tempo. Sentia isso.
- Oh, não me diga que ficou assim por causa desse DVD!? - de facto, Deodato tinha na mão a caixa de um filme, onde se via uma voluptuosa loura, de seios entumescidos que, por certo, tinha passado as passas dos algarves para entrar em tão apertadas (e escassas) roupas, estilo disco-sound. Atrás dela, espreitando-lhe por cima do ombro esquerdo e com a língua de fora, estava um rapaz de olhar esgaseado e hormonas ao rubro. - Uh, uh - urrou o homem - esse filme é um clássico dos anos 70. Antes da Linda Lovelace e da sua Garganta Funda, houve a Clementina.
O alemão tinha tirado o DVD a Deodato, que continuava mergulhado na mais profunda ausência.
- Você fique aí a descansar que eu vou ali à casa de banho e não me... ei, espera aí - disse ele voltando para trás. - Este gajo aqui atrás da Clementina... levante lá a cabeça - na ausência de movimento, foi ele que ergueu a tola descaída de Deodato. O espanto do berlinense foi tremendo. - É você. Você é o fDeo!
A vida dava muitas voltas. E, na juventude, algumas cambalhotas também. Antes de ser DeoF no Cartaxo, Deodato tinha sido fDeo, em Londres, onde tinha ido para ser punk, mas acabou a dar o corpo ao manifesto em filmes porno. Agora, ao atravessar a rua ainda toldado pela memória do que tinha, em tempos sido, não via o metro de superfície que se aproximava. Mal sabia ele que, aos comandos do veículo estava Heidi Tangerina, filha de uma actriz há muito caída no esquecimento dos homens.

26/10/07 11:10  
Blogger Sofia said...

E é assim? O Deodato morre e agora? Quem vai prosseguir com as investigações?

E t3endo em conta as informações preciosas que o Rui nos forneceu, este caso promete!

Bom fim de semana.

bjs

26/10/07 21:42  
Blogger hora tardia said...

:) frenética imaginação...


_________beijo de boa noite...espião de "almas"....:)


ainda estou a sorrir com o seu comentário lá.

26/10/07 23:18  
Blogger mcorreia said...

Ando por aqui num cometimento de atrasos nas leituras, não quereno outros atrasos, coisas da vida como sabes! mas logo havia de dar-me esta crise quando o assunto refere o meu estimadíssimo Deodato (Francisco é que eu tinha esquecido, mas eu não sou boa no memorizar de nomes, por isso ele deve ser Deodato Francisco desde nascido) Um bom fim de semana, meu amigo...Legível estimado, preciso.

27/10/07 10:03  
Blogger un dress said...

nos últimos momentos e já no estertor final ( ai...!!... )

deodorato pôde ainda ver-lhe o rosto e ouvir os últimos acordes

duma antiga canção vinda do seu mais remoto passado - um pouco toldado na memória :), é certo!


´oh ny darling oh my darling

oh my darling clementine

thou art lost and gone forever

dreadful sorry clementine...`



e pronto. lá se foi.

para espanto de todos, os muitos, aliás, que observavam a sumarenta
cena,

finou-se.

e finou-se

a sorrir...



beijO.abraÇo.e requieM.

/com música tradicional :)

desta vez...inglesa!!

27/10/07 13:22  
Blogger un dress said...

também não lhe vai mal

...deodorato...:)

27/10/07 13:25  
Blogger Ruela said...

estás em fogo, muito bom.
deixo-te aqui um link sobre como trabalhar com o AdobePhotoshop:


http://videotutorialesdephotoshop.
blogspot.com/2007_10_18_archive.
html

espero que a exp. corra bem.
um abraço.

27/10/07 17:50  
Blogger L.Reis said...

A insuflável criatura que acabaste de deixar viúva, sem esperança de receber qq pensão de alimentos, chamava-se então Clementina...e aparece agora de novo, para introduzir na trama um elemento sexo-terrorista...Voltarei... não quer perder o episódio- "O grande estoiro de Clementina"...

27/10/07 18:00  
Blogger segurademim said...

... acabaram-se as fotos do local, não é?

azar!!!

27/10/07 18:18  
Blogger paper-life said...

ahahahahaha
a falta que me estava ler uma beleza de texto destas num sábado que é mais domingo que segunda feira.

os meus ouvidos encheram-se de grilos e saio a assobiar a Nacional.

27/10/07 20:38  
Blogger rach. said...

Informação dos “Serviços Incrivelmente Secretos” a que o meu “alcance auditivo paranormal” e “velocidade de raciocínio mais rápida que o som” são alheios, embora a informação seja de fonte fidedigna: a receita do Requiem em Dó maior composto por Roché Ferrero, a não confundir com o Requiem for a Dream, a realizar no Parque das Nações reverterá a favor da viúva de tão afamado espião e obra levado a cabo a bem da humanidade.

1 beijo e sorrisos

27/10/07 21:02  
Blogger poca said...

hilariante.. desde o espanhol de lisboa.. à passagem do zague para o zig.. muito bom.

beijinhos e bom fim de semana

27/10/07 21:04  
Blogger rach. said...

Esqueci-me de dizer que adorei a variação em zag para zig, com um cheirinho a Bach, que nas fugas não havia pai p`ra ele.

:-0)

27/10/07 22:00  
Blogger Yes, Master said...

Um ano passou. Depois de uma pausa, mais ou menos esclarecedora, decidi regressar.
Não haverá, passado este tempo, menos pessoas sem alimento. Nem haverá menos pessoas sem condições mínimas de existência. O que parece existir, agora, é uma condição de acção necessária e urgente. Um imperativo moral, humano. Uma escolha que faço, como todos os colegas da blogosfera, e que serve, cada vez mais, para lembrar algo de essencial a todos nós, seres humanos: a nossa liberdade de expressão. E, hoje, passado tempo, para muitos tempo maior que para nós, é humano libertar a expressão e criticar. E quando digo criticar, digo lembrar alguém que tosse enquanto adormece, porque nada teve para comer. Como digo manifestar opinião sobre o caminho que se caminha, sobre a sua direcção, ou sobre os caminhos mais pequenos que ele atravessa.
Um ano passou, e muitos mais que nós sentiram cem anos passar. Sem esperança. Conformadas. Isoladas. Sem voz. Outros mais sentiram um ano passar depressa demais. Satisfeitas. Extasiadas. Desejosas de anos semelhantes.
Pois, eu pergunto: E nós, como eu? Como passamos?
Por mim, passei no meio. Senti dias de satisfação, de esperança garantida Mas outros dias senti um nó no estômago. E grande. Senti que algo está cada vez pior. Percebi que o Mundo se encontra negro, por debaixo do nosso peito. E que a nossa realidade, a da satisfação, é, porventura, a mais pequena de todas as realidades hoje constatadas.
Portanto, decidi regressar. Porque não tinha mais estômago para aguentar tanto nó. Porque percebi que existe um imperativo moral novo, que nós, os livre-pensadores, devemos seguir e manifestar, alargar e fomentar, e que, apesar de os dias que correm se passarem num imenso corredor escuro, onde por mais que se grite, ninguém nos ouve, não devemos nunca deixar de o fazer. A fazê-lo, esquece-se o que nos faz ser: a humanidade.
Neste caminho novo, seguirei acompanhado. Como nova forma de me manifestar, juntei outras vozes à minha voz, e juntas publicaremos diariamente, neste blog, a expressão do nosso imperativo moral.
Por todos aqueles que não podem criticar.

27/10/07 23:02  
Blogger Entre linhas... said...

O caso promete...confronto de personagens envoltas em mistério e drama.
Bom fim de semana
Bjs Zita

27/10/07 23:13  
Blogger Gi said...

Foi-se-lhe o desejo de um dia regressar a Lisboa e ser apelidado do "espião que veio do frio" . O "do" ficou irremediavelmente perdido debaixo do metro de superfície. Registo com agrado que deve ter morrido de barriga cheia, pelomenos a salsicha foi substituída pela bisnaga :)


beijinhos, resto de bom domingo. venham mais espiões, sirvam-se frios comos as vinganças ou quentes como as Clementinas .

28/10/07 17:20  
Blogger Maria P. said...

Com peúgas brancas!...impossível escapar, azar mesmo.
:)

Beijinho e boa semana*

28/10/07 17:29  
Blogger JPD said...

Li no Suddeutsche Zeitung que a vítima, no estertor da morte ainda foi capaz de dizer:

«eu ia para o aeroporto na esperança de apanhar uma low cost para Lisboa para poder ser atropelado pelo metro de superfície da margem sul»

Morreu a seguir.

Um abração

28/10/07 19:21  
Blogger Klatuu o embuçado said...

Anda muita coisa a precisar de ser «descanalizada» no Ocidente... :)

28/10/07 22:39  
Blogger lélé said...

Bem se diz que a vida de espião é como a roleta-russa! Se o Deodato tivesse transitado de um zigue para um zague, nada disso lhe sucedia!... Bem, talvez fosse atingido no zague por um centímetro de profundidade!...

28/10/07 23:07  
Blogger mixtu said...

mas que és isto, espanhol que nasce em lisboa...
canalizador a ser explorado com recibos verdes
e quem é a clementina, aquela gaja loira ed peitos fartos e ancas parideiras?
yayaya

abrazo europeo

29/10/07 12:15  
Blogger Polly Jean said...

lindo!

29/10/07 16:45  
Blogger ~pi said...

está sempre a chover nas tuas

cidades...?

não podes lá desenhar um sol?

sim, claro!...na foto.


:)

29/10/07 18:52  
Blogger foryou said...

Ajuda-me lá a entender uma coisa... fico muitas vezes na dúvida se o que escreves é fruto de imaginação ou real.
De qualquer das formas gosto de te ler mas...

29/10/07 19:25  
Blogger Bichodeconta said...

Muito interessante , gosto do desenrrolar da história,,Grande argumento..parabéns.um abraço.

29/10/07 20:04  
Blogger manhã said...

estes espiões lusos fazem jus ao orgulho pátrio entre um e outro zag não perdem pitada, não fora os dissabores dos eléctricos e tínhamos saga , sim senhor!

29/10/07 22:37  
Blogger legivel said...

para sofia, l.reis e entre linhas:

Esta história?! acabou aqui com a "morte" do Deodato Francisco e porque já não tenho mais fotos do local onde ela se desenrolou.

para ~pi:

Se a memória não me atraiçoa, estas fotos de Berlim, são das raras que editei aqui no blog, em que a chuva aparece. O sol virá, para teu (nosso) contentamento.

para foryou:

Apenas os nomes das personagens nas histórias que aqui deixo não são reais. Os relatos verídicos da minha atribulada e dramática existência podem ser confirmados por testemunhas idóneas. Eu seja ceguinho*.

* Acho que hoje em dia já ninguém fica cego por jurar falso. Se assim fosse, os livros em Braille vendiam-se que nem ginjas em Portugal.

29/10/07 22:42  
Blogger bettips said...

...ainda agora passei pela esquina do encontro! Tenho pena do nosso detective do Sardoal, como parecem todos, acabar num filme porno!
Abçs

30/10/07 17:55  
Blogger inominável said...

adoro este Deodato: não o mates!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

e pode ser que o encontre ainda vivo aqui por Berlin e lhe faça uma tentativa de reanimação super sexy: sim, sim, já vi em Baywatch como se faz...

Adoro esta tua sequência de fotos semi-semelhantes...

31/10/07 08:18  
Blogger APC said...

É incrível até onde chega a crueldade desta máfia da espionagem!... Matar um transeunte inocente fazendo-o passar por Deodato! Na autópsia a verdade veio ao de cima: Deodato usava sempre as meias brancas dos dois lados. As deste "13" estavam pretas por dentro, e isso foi determinante. Ou teria sido, não fosse o médico legista também abafado.
Havia de haver alguém com coragem para prosseguir com esta investigação e trazer à luz toda a verdade.

PS - Todavia, muitos parabéns pela cobertura que fizeste, camuflado! :-)

23/11/07 01:53  

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