CHEIAS em VALE DE COBERTAS

«... é que a gente com a prática vai-se habituando e depois já nem quer outra coisa. Pois se todos os anos há cheias pelas primeiras chuvas, já viu o que era haver um ano -ou mais!, com as terras sequinhas e não ficarmos isolados das povoações vizinhas? Alguma vez havia hipótese da nossa terra aparecer na televisão e nos jornais?! Ná! Assim é que está bem; pelo menos uma vez por ano somos notícia e até temos uma lista organizada de quem dá entrevistas às pessoas da comunicação social, que é para tocar a vez a todos. E tudo na maior das composturas que a vida não pára e o senhor bem pode apreciar com os seus olhos o que lhe digo. Observe a calma e a dignidade com que os produtos alimentares são transportados para o mini-mercado do senhor Freitas. E diga-me cá, se há alguém a atropelar-se na fila para os táxis?»
Parte das afirmações proferidas por José Fontinha, amolador, entrevistado pelo jornal regional "A Rosa dos Ventos" aquando das ultimas cheias em Vale de Cobertas.
Veneza, 2006. Texto e foto de: Alberto Oliveira.
33 Comments:
Pelo menos já estão á espera e não fazem drama com uma situação que já é normal.
marinheiroaguadoce a navegar
se não fossem as ilhotas que se criam por esta altura do ano, como poderia praticar com o meu jet-ski???
boa tarde
- Oh senhor Fontinha, diga-me cá, e quando estão isolados uns dias, sem poder sair daqui, como é que é, entendem-se todos bem?
- Com essa é que você me apanhou... - O sr. Fontinha, retira o boné para trás e coça a careca. - É que há aqui umas pessoas que não se dão lá muito bem, sabe? E quando começam a ser muitos os dias isolados...
- Conte, conte.
- Por exemplo, o Asdrubal Celestino da taberna não se dá com o Freitas Taínha do mini-mercado... coisas de saias.
- Ai sim?
- É. A Mariana Bandeira deu esperanças ao Asdrubal e depois ficou com o Freitas. Coisa de há muitos anos, está a ver... e depois o Asdrubal casou com a Umbelina, que é prima do Freitas e a familia zangou-se com ela. Mas um filho deles começou a namorar com a filha do Freitas e da Mariana. Quando se soube foi o bom e o bonito aqui na aldeia.
- Faço ideia.
- não faz não. Logo havera de calhar em altura de cheia... ninguém daqui podia sair. Houve aí porrada de criar bicho, os Celestinos contra os Taínhas. Oh Senhor, só de me lembrar...
- Foi assim tão mau?
- Foi mau, foi mau. Você não quer ver que uns atiravam com o que tinham na taberna e os outros respondiam com as coisas do mini-mercado.
- É lá...
- Eram copos de três para um lado, pepinos e rabanetes para o outro, uma coisa que só visto.
- E quem ganhou?
- Ganhámos nós, os que não tinham nada a ver com aquilo. Olhe, só eu consegui arrabanhar duas couves galegas, um molho de nabos, dois pepinos, um conjunto de copos de bagaço, um pacote de amendoins e dois quilos em pacotes de açúcar.
Já me tinha interrogado porque seriam sempre cheias?! Agora já descobri.
Obrigada por me ters elucidado esta dúvida que em mim viva há imensos anos e que sempre se renovava....
Já é ponto assente quando venho aqui, procurar a outra história versão Rui. Parto o coco a rir...:)
beijinhos
É um bom negócio para o Ti Zé que vende galochas.
E neste país de navegadores, era o que faltava se o Zé não se adaptasse rapidamente a uma enchentezinha.
Abraço.
Deve ser por isso que "ir para uma ilha" faz parte do imaginário dos viajantes!... :)
falou e disse muito bem!!!! A aproveitar uma temporária ilusão de veneza! :)
e este é o nosso portugal profundo... tão profundo que dá para fazer mergulho!...
Chamem o intrépido senhor Jacques Cousteau que aqui há habitat por explorar!
Val de cobertas...em quem a chuva teve poder....
Bom blogue.
Paulo
No Egipto, ninguém se importava muito com as cheias.
A riqueza das terras da lezíria dever-se-á às cheias.
Perturbam, é certo. Porém, se não forem exageradamente danosas e podermos aproveitar alguma coisa, a prevenção da sua fúria poderá ser uma medida rotineira...
Um abração
Porque ele há alturas em que as cobertas não cobrem lá grande coisa do vale, e deixam meter água!...
(Esta Veneza de repente lembrou-me aquela de "Ljubljana, 2006" de há uns posts atrás).
Um abração!
Ah... Já agora: não te disse que foste feito prisioneiro no meu blog, não? ;-)
"Ora, observe lá bem a calma e a dignidade com que os produtos alimentares são transportados para o mini-mercado do senhor Freitas."
E, efectivamente, assim era.
Caixas, caixotes, embalagens... todos passavam por nós, a flutuar, levados pela água, num bailado sereno. Até ao mini-mercado, onde, por um capricho de uma qualquer divindade de cariz hídrico, a corrente depositava mt do q transitava na agora ex-estrada.
O Sr. Freitas n ia ter mãos a medir. Nem se podia queixar, com este acréscimo ao stock. Havia gente de sorte.
Um abraço.
Descreveste Veneza ao contrário...!
hehehehehe
Gostei!
Cheers
eheheheh.... e a questão é mesmo essa, retirar-se proveito das situações todas.
Bjs
Serenidade perante a natureza...porque quem a não pode combater, associa-se a ela... é o que me apetece dizer...
Um abraço ;)
anda tudo é a meter água... tzzz... tzzz...
Soberbo. Mais uma vez coberto daquela ironia especial que te é tão própria e que eu honestamente adoro.
Até já.
Isabel
Para o Vales das Cobertas da foto é que eu ia bem agora.
Pois... ao menos, a água é para todos...
Caro Legível
"até temos uma lista organizada de quem dá entrevistas às pessoas da comunicação social, que é para tocar a vez a todos."
Ora aí está como o povo sabe viver em democracia.
E em harmonia com a Natureza.
Tenha um boa tarde
Cheias...problema de uns;
Seca...problema de outros.
A Vida é mesmo assim.
Beijo.
... que venha a chuva, os barcos, as botas altas, os rios, os lagos, os banhos nos passeios, dados pelos carros que passam!
assim como assim, temos que diversificar a animação nossa de cada dia
cheia de vontade lá voltar já eu estou!!!
Veneza é um bom exemplo para as terras alagadas, só que não acredito nessa serenidade de boas maneiras. Ó pá tira a merda da barca da minha frente, ou arrombo-te o casco!
Um abraço. Augusto
Grata pelas poéticas visitas à Casa de Maio.
Beijinho:)
não vi, mas confirmo... as palavras, claro!...
...e em Veneza a vida decorre placidamente!
o meu tio! desaparecido! José Fontinha, amolador! tal e qual de gaita aos beiços desde que o conheço. Conheci! porque, a parte da família do ramo a sul de Vale de Cobertas e que se conta por uma trintena em lares de terceira idade e hospícios, salvo eu e uma prima que emigrou (vive numa palafita no Mar Vermelho e vende frasquinhos de água aos turistas - está rica )julga-o desaparecido, morto, que até a viúva lhe vendeu a gaita num enrascanço de dinheiros com uma prima para a renda do lar, e deu a bicicleta recuperada a um dos netos! Desaparecido, assim em dilúvio que por lá houve em meados do século em que nasceu o primeiro neto, agora garboso homem das milícias num país do deserto que eu para localizar geografia neste Planeta sou durinha, prefiro mais o Universo.
José Fontinha, amolador, meu tio! de gaita aos beiços!
dás-me o endereço do jornal, te peço?!
Engraçado, José Fontinha era o verdadeiro nome de Eugénio de Andrade...
eheheh...sejamos peritos em qualquer coisa, mais não seja a meter água...
Desculpa lá, Legível, por abusar da tua casa, mas esta é para o Rui
"...só que não reparei que as cobertas tinham sido tiradas do vale e lá se foi tudo por água abaixo. Não valeu o esforço. Ainda vi um pepino entrar pela janela da Mariana. Mas fiquei bem calado. E tenho cá uma fezada que ela pensa que foi gracinha do Asdrubal. Na próxima cheia acho que vai voltar a chover no molhado." - disse o Fontinha, coçando de novo a careca.
Beijinhos para os dois.
E o Vale dos Lençóis, é lá perto?
fantástico o senso de adaptação do ser humano, bem como rir da própria desgraça!
um abraço fraterno.
Post a Comment
<< Home