Sunday, October 15, 2006

ESTAR OU NÃO ESTAR
















Alquebrado, olhar permanentemente em guarda, voz trémula mas com o manuscristo tenazmente agarrado junto ao peito, encontrei-o um destes dias ali para os lados do Areeiro. Pela direcção que tomava, bem poderia dirigir-se ao Ministério do Trabalho e da Segurança Social, quem sabe se para resolver algum problema laboral. Bem arranjado estava, que sairia de lá com uma mão atrás e outra à frente. E na actividade que desenvolvia não seria mais aconselhável tomar o caminho da Sociedade Portuguesa de Autores? E porque não a Polícia Judiciária? ou o provedor das artes & ofícios... E em desespero de causa bem se podia queixar ao Totta. Depressa a minha febril imaginação afastou este cenário e já o via a transpor a porta da Casa do Artista sendo recebido pelo soldado da guerra de 14 e por algumas gentis senhoras desdentadas no auge da carreira reformatória.
Tirou-me as dúvidas que tinha, numa resposta algo teatral mas a que dei o devido desconto, pois um inglês sem hesitações e fora de casa, não é maçã fácil de roer. Que não, "que a sua produção mantinha os níveis habituais, as peças representavam-se bem, a afluência do público era extraordiária, que a população tinha um nível de escolaridade muito bom, era exigente e para isso decerto estavam a contribuir com um trabalho de base feito sem quaisquer contrapartidas de excepção todos os agentes sociais. À classe política, pilar desta sociedade democrática, agradecia penhorado o prazer de aqui permanecer. Stratford upon Avon tinha ficado há muito para trás e estava mesmo decidido a fazer como Deco e Obiqwelu: naturalizar-se... " . Depois "recomporia a máscara facial e corporal; sorriso nos lábios, olhar despido de apreensões e tronco direito que nem um fuso", acrescentou.
Budapeste, 2006. Texto e foto de: Alberto Oliveira.

31 Comments:

Blogger segurademim said...

... também fui para os lados do areeiro, perguntar ao ministro quem matou a dália negra

( penso não me ter enganado; esse ministério é onde nos andam a tratar da reforma, não é? ambiente de mistério... mafioso e sensível )

em clima al capone

;)

15/10/06 18:57  
Blogger Sofia said...

;) gosto de te ler porque me provocas sempre um sorriso.

bj

15/10/06 19:04  
Blogger JPD said...

Incontornável, o Menino William!
Um abração

15/10/06 19:21  
Blogger Rach said...

em clima de al capone ou de truman capot.
Vivendo e aprendendo. Então não querem lá ver que o menino William, princípe da mascarada e da momice também recorre á plasticidade do botox, qual Branco Castelo...Noblesse oblige

15/10/06 19:32  
Blogger OvelhaNegra said...

Porque não juntar à voz do menino William, a voz do Príncipe Eça e, em uníssono, dizerem como João da Ega :
«Sinto-me como se a alma me tivesse caído a uma latrina! Preciso um banho por dentro.»

Um beijo e um sorriso*

15/10/06 21:51  
Blogger Maria P. said...

É bom passar por aqui e Estar.

Boa semana:)

15/10/06 23:15  
Blogger Teresa Durães said...

O William teve dúvidas? Bom, Cristo também, conta-se,
(parece que disse "Pai porque me abandonaste?")

mas era Cristo afinal. Conta-se

E William até deve ter lido a biblia (protestante)

o areeiro não é o que tem o santo milagreiro em estátua? (ou troco?)

mas tem mesmo o ministério da reforma.

(mas não há reforma de escritores, olha, azar para o ministério)

boa semana e boas peças para o william ;)

15/10/06 23:19  
Blogger APC said...

Sabes que senilidade faz esquecer o que é crer no que não é; o que, até certo ponto, liberta...
Assim, o Shakespeare que se te cruzou, talvez, que o tempo não perdoa; ainda que ele nos seja intemporal! :-)
A tua ficção fixa-me!
Beijinhos.

15/10/06 23:30  
Blogger Suzi said...

as algumas senhoras desdentadas compuseram perfeitamente a imagem traduzida em palavras!!

beijo!
;o)

16/10/06 01:17  
Blogger De tudo e de nada said...

Bom dia. Não entendo muito bem porque o grande Shakespeare tencionava "naturalizar-se" português. A velha questão do "to be or not to be" certamente lhe subiu à cabeça. Beijo.

16/10/06 10:13  
Blogger Sea said...

Mais vale, não estar :)
beijo

16/10/06 10:15  
Blogger Maria Papoila said...

Fico sempre espantada com os textos que se escrevem por aqui.
Diferente de qualquer outro blog que até hoje li, não dispenso uma passagem diária, sempre na expectativa de encontrar mais uma boa surpresa.
Não pare nunca de escrever!
Um abraço da Papoila.

16/10/06 11:27  
Blogger sotavento said...

Queria ser português
E estava até preparado
Jogava futebolês
E até cantava fado

:)

16/10/06 13:42  
Blogger Silvia said...

Naturalizar-se... mas ele é tonto?!!! É que aqui só se liga a futebol, cultura...PFFFFF...

16/10/06 16:58  
Blogger Rui said...

Guilherme sacou da bolsa e retirou uma moeda de 2€. Benzeu-se por dentro e entrou na Casa Campeão, ali na esquina com a Av. João XXI.
- Dê-me aí uma aposta no Euromilhões que desta é que vai ser.
Nada mais era que um sonho numa tarde de outono, mas ele não quis saber. Ao sair cruzou-se com dois conhecidos seus, de Verona.
- Vem aí Tempestade. - disse-lhe um deles.
- Muito barulho por nada. - respondeu Guilherme, deixando o outro a pensar.
Na rua, toca-lhe o telemóvel. Era o Mercador, de Veneza.
- 'Tou?
- Guilherme, meu maluco...
- Henrique, já és o quinto que me chama isso hoje.
- Quem foi o primeiro?
- Ora, o Ricardo... espera, o Ricardo foi o segundo.
- Mau...
- O primeiro foi o Otelo.
- O Saraiva?
- Não, o primo do Tróilo, sobrinho da Créssida.
- Só conheço o Timão.
- O de Istambul?
- O Timão de Atenas.
- Ah, esse. Pensava que era o cunhado do Romeu.
- Por falar nisso, tens visto a Julieta?
- Olha pá, não! Vi foi o Rei Lear.
- Só conheço a imobiliária, a Rei Lar.
- Estás sempre no gozo...
- Ora, é dos nervos.
- Então?
- Amanhã há jogo. Ainda por cima jogamos com uns gajos que usam umas camisolas feias como o Tito Andrónico.
- O afilhado do Hamlet.
- Não, do Macbeth.
- Porra que já não sei de que terra sou.
- Ah, ser ou não ser...
- Olha, boa... vou apontar essa.
- Sempre me saiste um ganda bardo!

16/10/06 18:19  
Blogger Isabel said...

Fantástico que elevada a qualidade da tua escrita...ora me faz sorrir pela ironia habilmente escondida nas entrelinhas ora me deixa triste pela profunda e por vezes dolorosa realidade que a acompanha.
A tua escrita provoca e essa é sem duvida uma das suas principais funcões.
Adorei.

Isabel

16/10/06 18:32  
Blogger Clara Hall said...

Fantásticos e fantasmagóricos estes seus encontros com os génios da música e da literatura. Só fiquei preocupada com isso do grande dramaturgo querer naturalizar-se português…não se esqueça de o avisar que só para tratar da papelada é bem capaz de se enredar nalgum processo verdadeiramente kafkiano, que a Loja do Cidadão tem dias.

Boa noite. Boa semana.
:)

16/10/06 21:26  
Blogger Pilantra said...

Compadre, já te sabia destemido mas nunca me passou pela cabeça que te atravesses a ir aos areeiros!
Tu tem cuidado com isso! Olha que eles já deitaram abaixo a ponte lá de cima e ainda te vão aí aos alicerces e cais ao rio!

E depois não há agita-peras que te conte a história - que peras aqui só a rocha do oeste e essa foi toda gasta nos iogurtes!

17/10/06 00:00  
Blogger doistons said...

Excelente post! Dentro daquilo que a que nos habituaste. Estranhei que um grande senhor de um grande país europeu se quisesse naturalizar português.
Só mesmo fantasia.
Beijinhos

17/10/06 08:58  
Blogger both sides of the gun said...

excelente post...
muita imginação e criatividade

17/10/06 15:26  
Blogger Licínia Quitério said...

Mas o William está tão alquebrado. Terá vindo de barcaça? Não lhe disseram que já tunelaram a Mancha? A última vez que estive com ele em Stratford disse-me que sonhava vir numa noite de verão até à Regaleira. Será que se enganou e disse Areeiro ao taxista? Tadinho, vai lá buscá-lo, Alberto.

17/10/06 16:22  
Blogger Joana said...

Ser ou não ser, eis a questão.
Ao ser tuga passo a não ter um tostão,
que isto de ser escritor neste país não me rende, nem um leitor.
Ao ser tuga passo a beber jolas e a comer tremoços e a ficar com remossos que o colestrol já saiu fora de "control".
Ser tuga ou não ser, que pertinente questão, mas arranjando um novo ditado: mais vale ser tuga do que ingles rebarbado...
:)
lololollll
bjs

17/10/06 17:06  
Blogger Maite said...

Caro Legível

Outra boa crítica à situação actual mas não se esqueça que os tempos de Shakespeare foram muito difíceis mesmo para ele que era um génio :)
Andei à procura de um soneto em que ele fala precisamente dessa sua angústia, mas infelizmente ainda não encontrei e não o sei de cor. :(

Tenha uma boa tarde

17/10/06 19:24  
Blogger Bel said...

Nao estar!
beijo

17/10/06 21:37  
Blogger passarola said...

olha...a próxima vez que o vires, pede-lhe que venha falar comigo..estou a precisar de uns conselhos de mestre.. e eu infelizmente, não tenho destes encontros imediatos.

17/10/06 21:50  
Blogger A. said...

Doce Al...venho
pedir desculpas pela minha falta de tempo,ausência...tenho andado por cá...mas quase sempre só a espreitar.

Perto das estreias é sempre complicado gerir o meu tempo.
Quero apenas dizer...que há pessoas que nunca deixo de visitar...e que sempre me deixam palavras tão bonitas...tão azuis.

Um beijo cheio de do nosso Azul.
...ah,e eu estou!
:)

17/10/06 22:35  
Blogger lélé said...

ah, Legível... tu tens uma facilidade em inventar e escrever histórias!... e uns comentadores à altura!... não consigo comentar!...

17/10/06 23:02  
Blogger BlueShell said...

Um texto maduro que dá gosto ler!

Beijo terno e azul…
BShell

18/10/06 12:09  
Blogger Luz said...

Estou a adorar esta série de fotos comentadas, ou textos ilustrados com cenas actuais... :)

Mas no Areeiro, com ar perdido... Não estaria a tentar renovar o BI em dia de greve da função pública? :p

Beijinho :)

18/10/06 12:29  
Blogger augustoM said...

Não deste por isso, mas ele estava a contar-te uma passagem das Alegres Comadres de Winsor.
Um abraço. Augusto

18/10/06 14:06  
Blogger APC said...

Ressalva: só hoje me dei conta de um lapso que corrigo "a senilidade faz esquecer o que é e crer no que não é". Bjs*

23/10/06 02:11  

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