Wednesday, October 18, 2006

DO COMPLEXO NEXO das FÁBULAS


Em tempos que já se perderam na poeira dos ditos, um homem e uma mulher vindos não se sabe muito bem de onde, montaram arraiais no largo da pequena povoação de Riostoka e chamaram a atenção dos seus espantados habitantes não só pelo extravagante trajar mas também pela sua postura corporal. Abrigando-se da chuva miuda que teimosamente não cessava de cair, sob o telheiro do minúsculo mercado da terra, mantiveram-se -para mais e não para menos, seis horas seguidas de pé, quedos, mudos e de olhos fixos na casa em frente onde morava o presidente da junta de freguesia. Ela segurava na mão direita um enorme e belo exemplar de uma pescada-verde-alvaláxia -peixe raríssimo por aqueles lugares e naquela altura do ano. Ele exibia uma rede-apanha-borboletas-distraidas em cujo aro se equilibrava um pombo-correio-azul. De repente e sem que nada o fizesse prever, os atónitos habitantes ouviram o pombo-correio-azul falar. «O presidente da junta de freguesia deste lugar, apenas dá emprego aos familiares, amigos e membros do seu partido. Acham isto justo?!». Ainda o sinal de interrogação pairava no ar e já a pescada-verde-alvaláxia atacava «O presidente da junta de freguesia deste lugar utiliza os dinheiros públicos -o vosso dinheiro!, em acções que nada têm a ver com as necessidades reais da vossa terra. Manda editar livros de versos de pé-quebrado dos amigos do peito, que custam um balúrdio, mas as ruas de Riostoka permanecem esburacadas há um ror de anos. Acham isto justo?!». Sem deixar que a populaça se recompusesse, voltava à carga o pombo-correio-azul «E as viaturas da junta que são utilizadas para as manifestações e comícios do partido? E o que dizer dos concursos que são sempre ganhos pelos... ». Não disse mais o pombo-correio-azul porque da porta onde morava o presidente da junta de freguesia, saiu um dinossauro grande, gordo e de farto cabelo negro que deitando chamas pelos olhos berrou «CHEGA!! Quem manda aqui sou eu! Eu... e o povo que me ama e por isso vota em mim, benza-o deus; e há muitos anos por sinal. E o povo nunca se engana!!» E deixou uma garra a pairar no ar a apontar ameaçadora para o grupo fabulista. O povo comovido, aplaudiu de pé (que era a posição em que se encontrava desde o início da função) o dinossauro e expulsou da povoação o homem, a mulher, o pombo e a pescada; que persistentes foram pregar para outra freguesia...
Barcelona, 2006. Texto e foto de: Alberto Oliveira.

40 Comments:

Blogger Sofia said...

fazes-me rir até ás lagrimas! Onde vais buscar estas coisas??????? És o maximo!

bj

18/10/06 16:16  
Blogger Maite said...

Caro Legível

Você nem imagina o que me fez rir! Não só pelo texto em si que está muito "bem apanhado" mas porque andava eu também a pensar (aqui neste lado)numa fábula com "uma moral da história" que aqui nesta sua, bem poderia ser "Cada um tem aquilo que merece".

Tenha uma boa tarde

18/10/06 16:27  
Blogger Isabel said...

Fabuloso... ri do que não tem graça pois essa é a realidade real deste realmente pouco em contacto com as realidades Portugal por realizar. Deste Portugal farto de promessas ditas realistas e realizaveis que por realidades que todos conhecemos, não são mais que promessas bem distantes da realidade real deixando assim que aos olhos de quem realmente vê o país real parece realmente ireal.
Ou será surreal?

Deu-me para aqui...
Foi a inspiração do teu post realmente fabulosi e da real realidade...

Isabel

18/10/06 16:31  
Blogger bell said...

De certeza que se passou em Riostoka? É que poderia ter acontecido em qualquer cantinho de Portugal...

18/10/06 16:40  
Blogger Ricardo said...

Estimdado Legível

Esse dinossauro por caso não será cor de laranja-estrelícia e não será característico de um arquipélago no Atlântico, embora já se tenha alastrado a outras zonas?
Obrigado pelo texto, eu já estou como diz a música: "rio para não chorar".

18/10/06 16:40  
Blogger Luigi said...

Curioso o timing desta tua história. ainda esta semana estava a comentar sobre esse tipo de cunhas que existem por todo o lado.
o pombo é que a sabe-a toda!

18/10/06 16:45  
Blogger Teresa Durães said...

Pois eu também já ri e bem!!!
E... ah!!!!!! Esse tipo de dinaussauros... de gente lambe botas... de gente que é afugentada... (claro.. claro... certamente foi em Riostoka! onde poderia ter sido???? se alguma vez vi coisa tal!)


mais uma vez, um excelente texto!!

18/10/06 17:05  
Blogger Llyrnion said...

Só tenho alguma dúvida sobre se o povo se encontra relmaente de pé...

Ou se tem os joelhos cheios de feridas, das quais nem se apercebem, de tal forma estão anestesiados.

Um abraço.

18/10/06 17:19  
Blogger De tudo e de nada said...

Legível. Que escândalo sórdido. Então não querem lá ver que o seu presidente da junta é o não menos falado Alberto João Jardim! Só espero, veementemente, que o menino não seja afilhado do dito cujo energúmeno. Eu sei que o menino anda "possuído" mas não acredito que beba a surrapa que é o vinho da Madeira:)) Beijo.

18/10/06 17:57  
Blogger legivel said...

A quem interessar:

Estou deveras surpreendido por alguns comentadores que aqui vieram terem visto neste "retrato dinossáurico" o incontornável doutor Jardim do jardim da Madeira.
Não foi minha intenção retratar figura tão polémicia(?!) e para que não subsistam dúvidas, substituí no texto "cabelo ralo" por "farto cabelo negro".
espero agora (em suspense) que não vejam no citado dinossauro, o doutor Fernando Ruas da ANMP...

Risos & mais risos.

18/10/06 18:59  
Blogger Pilantra said...

Eu cá estou intrigadíssima com esse par de animais falantes!
Tens a certeza que o pombo não era a pomba do Picasso?
E a pescada não seria a Abrótia dos Remédios?

18/10/06 19:09  
Blogger sotavento said...

Foi então com esta lenda que nasceu a famosa frase: "eu é que sou o presidente da junta"?!... :)

(Pois é, o meu coração balança...) :)

18/10/06 22:53  
Blogger Kalinka said...

Olá Amigo
Eu bem quero ler-TE, mas os olhos teimam em fechar-se, quase que preciso de uns palitos para os manter abertos... estou exausta.
Por tal motivo, volto noutra ocasião para ler e comentar.
Bons sonhos.
Abraços.

Nota: se quer um desafio sobre Musica Portuguesa, visite-me.

19/10/06 00:38  
Blogger Joana said...

Olha sabes o que eu te digo?
"Eu! Eu é que sou o presidente da Junta!"
Mas seria um dinossauro carnivoro ou herbivoro???
hum... ou seria hermafrodita... ou quiça conservado em alcool etilico tinto 12 graus...
I wonder, I wonder...

Amei de morte o post!!!!

19/10/06 01:35  
Blogger passarola said...

Muito bom!!! Uma fábula cheia de nexo!! :)

19/10/06 14:42  
Blogger Azul said...

Vá-se lá saber porquê, tenho a impressão que me cruzei há tempos com este pombo e com este peixe arraçado de azul e verde, ou seria com outros da mesma trupe ou família. Não sei bem, mas lá que gostei de ler e ouvir, isso gostei. Sem mais comentários por agora, aguardo mais notícias desta terra de gente bem trajada e imaginativa, porque é preciso tê-la para fazer face aos senhores residentes das juntas de freguesia. lol
Beijo grande para si, quem quer que seja, Legível. Até breve. Azul.

19/10/06 15:20  
Blogger Licínia Quitério said...

Não, Alberto, nem pensei no Alberto. É que além do tyranosaurus rex há por aí muitos outros lagartitus subditus com postura idêntica. Eu que sou pescada do baixo conheço alguns. E lá vou pregando, de freguesia em freguesia. Vale-me o pombitus azuláceus.

Beijinhos.

19/10/06 15:30  
Blogger Rui said...

Adelino passou a mão pelas escamas azuis-apito-dourado do dragão e deu-lhe um pacote de açucar.

- Guarda Abel. - chamou ele. - Pode levar o Valentim para o calabouço.

Esta malta não sabe com quem se mete. Matutava Adelino, enquanto cofiava a barba mal semeada. Corro tudo a pontapé. Aproximando-se da janela, sorriu um sorriso maléfico, logo interrompido pelo telefone.

- 'Tou?
- Adelino, sou eu a Fátima.
- A Fátima?
- Não tonto, a outra, aqui de perto, a do saco...
- Ahhh, a minha amiga. - logo interrompeu ele.
- Ligou o Dr. Juiz, a contar da fábula a que puseste termo.
- Caraças, pá. Não te escapa nada.
- Tu sabes...
- De amizades destas é que eu gosto.
- Mas conta lá detalhes.
- Ora, o que queres, à população já eu tinha posto a pata em cima, mas não é que dá para começarem a ser os animais a por a boca no trombone?
- E eu que não gosto nada de musica de orquestra...
- Ya, tu é mais samba.

Riram os dois.

Longe dali, na Torre das Andas, alguém de cabelo ralo, brincava às marionetas.

19/10/06 16:21  
Blogger a star was born said...

Por um Rivoli abrangente e que continue a ser um espaço municipal que cruze diferentes tipos de espectáculos e públicos, o manifesto e a petição:

http://www.juntosnorivoli.com/

Um abraço.

19/10/06 17:44  
Blogger tb said...

parece que afinal está disseminado por vários locais...
está demais! Parabéns.

19/10/06 20:28  
Blogger JPD said...

Muitíssimo bom.
Estás em forma Alberto.
Um enorme abração

19/10/06 22:31  
Blogger Maria P. said...

Bravo!

19/10/06 22:45  
Blogger PiresF said...

E em Riostoka foram felizes até um dia…
Pior que não ver, é não querer ver.

Muito bem esgalhado. Escrita simples e escorreita.

Gostei muito.

19/10/06 23:39  
Blogger Velutha said...

Os pequenos dinossauros pululam por aí. Espero que não voltemos ao Jurassico e não sejamos definitivamente engolidos por eles.
Belo post, como sempre.
Beijos

20/10/06 06:56  
Blogger João Mãos de Tesoura said...

A pescada foi vista em Barcelona espadinhas com três carapaus de sangue andaluz, o pombo, esse, foi abatido a tiro quando sobrevoava uma coutada de um zeloso autarca, o homem e a mulher separaram-se; ele mudou de sexo e apresenta um dos telejornais da Sic Notícias, ela ganhou a câmara de Felgueiras...
Abraço

20/10/06 08:05  
Blogger segurademim said...

a desconexa pescada-verde-alvaláxia, de cor azul e porte de dragão virou-se ao dinausaurio e aí é que o povo teve o seu "arraial"!! finalmente de borla!!! e à luz do dia... que habitualmente decorriam sob as iluminações de mau gosto, feitas pela firma do presidente da junta

era "posta de pescada" distribuida pelos sete cantos da povoação ... várias foram parar à mesa do catering servido na comemoração dos 25 anos do "grupo concelhio de idosos" em cujos discursos muito se valorizou as mesmas "caras" que ano após ano estavam sempre presentes no evento!!!!???

este texto está o máximo!!! ri-me à parva, desculpa, à presidente da junta

20/10/06 09:37  
Blogger Mikas said...

Bom fim de semana

20/10/06 10:26  
Blogger Sea said...

:D gostei imenso
beijo e bom fim de semana :)

20/10/06 21:28  
Blogger lélé said...

"e pr'aqui estamos em salamaleques, a lamber mãos feitas pr'abanar leques, a pedir bis, a gritar bravo a aplaudir - muito bem, até domingo que vem"... e vem-me à memória uma frase batida... a m*** é a mesma, só mudam as moscas...

20/10/06 22:37  
Blogger alfazema said...

Um post fantástico. De fantasia pintado mas no quotidiano de todos nós inspirado.Ri da tua capacidade para ironizar.Do que aqui dizes, infelizmente, só dá vontade de chorar.E este presidente irá continuar por muitos anos. Resta saber se poderão algum dia ser todos muito felizes.
Já a minha avó dizia: Adeus mundo, cada vez a pior.
E por aqui me fico.
Beijos

21/10/06 07:20  
Blogger Clara Hall said...

O Presidente da Junta é apenas o modelo ou o exemplo. "Vestir a camisola" e guardar a devida distância dos cofres que não são os das suas casas deve ser algo muito difícil de praticar por alguns a quem é conferido um certo tipo de poder.
O que vai por aí em falta de ética no gasto dos dinheiros públicos dava argumentos para uma carreira de escritor de policiais.
Quanto a mim, gosto mais do estilo cómico-fabulista. É muito mais legível e garante sempre umas boas gargalhadas.

:)

Boa tarde,
Bom fim-de-semana.

21/10/06 18:01  
Blogger BlueShell said...

Um dia de chuva...
E um beijo sem cor..nada mais tenho para te oferecer, hoje!
BlueShell

22/10/06 12:52  
Blogger A Rapariga said...

I like darkness and confusion and absurdity, but I like to know that there could be a little door that you could go out into a safe life area of happiness.

E agora vou pregar para outra freguesia.

Boa semana

22/10/06 21:13  
Blogger APC said...

Claro que esse povinho com a mania de se erguer para dizer umas coisas aos senhores tem que aprender de alguma forma! Não fosse os presidentes terem do seu lado a força jurássica, e ainda haviam aqueles de querer vingar as suas razões, quando deles se espera tão pouco: que trabalhem e que calem (e, em dias feriados, podem até aplaudir quem sabe o que é bom para eles). Enfim, coisa de fábula!...

23/10/06 02:09  
Blogger Luz said...

Bem, 6 horas, que grandes bícepes! Uma bela metáfora, e dá para aplicar em tantos casos... :)
Beijinho.

24/10/06 11:22  
Blogger Pilantra said...

Sinto-me frustadíssima: não há novos animais falantes! Protesto, roxa de indignação, em papel trinta e cinco linhas, azul e selado com naftalina. PRO-TES-TOOOO!

24/10/06 15:05  
Blogger Rach said...

Xiiiiiuuuu...Pilantra que aguardamos em silêncio que poisem o resto dos figurantes. Com ou sem cabeleira farta

24/10/06 17:18  
Blogger augustoM said...

Para quem é o barrete, melhor a fábula? Tem destinatário previsto ou é uma geral? Porque na generalidade a fábula vai bem.
Um abraço. Augustro

24/10/06 18:53  
Blogger Seila said...

Tu mereces mais do que este "passo por aqui e nem leio, mas deixo um abraço" tenho querido mais, mas não tem dado sei lá... deixo o tal abraço e um turbilhão de saudades

24/10/06 19:07  
Blogger batista filho said...

Verdade verdadeira? Dessa vez não consegui rir não... É claro que gostei, e muito! O texto, belíssimo!... mas travoso. Podemos transportá-lo para diversas regiões do planetinha que se aplica perfeitamente... inda sim continuará travoso - porque verdadeiro.
Parabéns, amigo: parabéns!

26/10/06 01:54  

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