Tuesday, November 07, 2006

TANTAS VEZES o CÂNTARO VAI À FONTE...















«Eu ainda não percebi muito bem o que tu queres da vida Narciso! Passas aqui o teu santo tempo olhando absorto o correr das águas, nesses preparos nada edificantes para um homem da tua condição - como se não tivesses um fatinho em condições e sempre de mão no vasilhame» Ele rodou lentamente a cabeça, fitando-a pacíficamente. Era o que se poderia classificar de um homem em permanente luta consigo mesmo e que procurava compreender o género humano na generalidade e o da sua esposa em particular. No fundo -e na sua perspectiva, os alicerces frágeis dum casamento que já conhecera melhores dias, assentavam apenas no respeito?! que ele lhe tinha e na aura de mistério que dela emanava desde que a conhecera numa bela noite de Verão no Jamaica (de ritmos quentes a condizer com a época estival) e na permanente conflitualidade cultural que ela vivia consigo própria e alimentava no fogo brando da teimosia. «Minha adorada e ingénua ninfa! Tu estás careca de saber que do meu pai herdarei os rios do universo . Forçoso assim se torna que esteja em permanente contacto com o cristalino líquido até tomar conta do negócio. Nesse dia a água será o meu espelho; e nele (se fosses capaz de me acompanhar até lá... ) haverias de ver também, a bela figura que fazes assim vestida»...
Viena, 2006. Texto e foto de: Alberto Oliveira.


31 Comments:

Blogger Rui said...

Idalina fechou os olhos e pousou a fatia de queijo flamengo e de filete afiambrado com se preparava para fazer uma sandes mista.

- Olha lá, oh meu papo seco. - Disse ela, de mão na anca e pé fora da chinela. - Já te disse parta não me chamares essas coisas... ninfa, ou lá o que é, que eu posso ter crescido na Musgueira mas não sou menos que tu. E careca é quem te fez...

Narciso interrompeu-a, olhando em redor, para se certificar nenhuma outra deidade estava por perto.

- Meu xuxu... peço desculpa, eu digo estas coisas mas é sem intenção de te ofender, antes pelo diverso, eu quero é glorificar-te. Sabes, desde que eu me dedico à leitura de blogs, que fiquei assim, meio atrapalhado de vocabulário, perco-me nos termos.

- Por falar em thermos, vê lá se o nosso está cheio, que logo quero ir para a beira da piscina e não me posso esquecer de levar água quente para o chá.

- Tem sim, minha tágide.

- Lá 'tás tu, porra!

7/11/06 18:02  
Blogger Teresa Durães said...

- Lá 'tás tu, porra!
Não vês que é do meu feitio admirar o que é belo e não me acompanhas?

Idalina cerrou os dentes, contou até cem duzentos trezentos e explicou.

- Não somos todos poetas, nem escritores nem admiradores. De facto não sei admirar o belo lindo maravilhoso, tão pouco fazer o mesmo que tu. Mas dou-te a paparica e o aconchego. Se fôssemos iguais, quem aspirava a trampa da casa?

Narciso pensou. Havia ali uma certa rasão.

- Vá, glorifica-me então e pelo caminho trás-me um café!

7/11/06 20:49  
Blogger APC said...

Pior figura fazem algumas vestidas. Aliás, é já a segunda que aqui vejo de seios belos e firmes, e, coincidentemente (!) sempre estátuas! :-)
E o moçoilo até que é jeitoso, mas desde que ela deixou de ver o padeiro, que ele deixou de ver o barbeiro (como na história do ovo e da galinha, o que veio primeiro é que não se sabe).
Pois é... Tanto a fonte vai à montanha, que um dia é o cântaro que vai a maomé!
Um abraço, excelso contador! :-)

7/11/06 23:14  
Blogger JPD said...

Eu acho excelente este texto.
A exaltação narcísica sem que houvesse espaço para alguém vir e atirar a primeira pedrinha de... inveja ou escárnio e lá se ia o reflexo, a exuberante torna imagem!
Muito bom, amigo Alberto.
Um abraço

8/11/06 00:24  
Blogger Fortunata Godinho said...

Legível,
Tens um modo de contar as coisas que encanta. Como o Narciso, encantado estava, mas cosigo mesmo...
É muito dificil não te congratular pela tua facilidade em olhares algo, que nos passa pelo olhar diariamente, e efabulares logo.
Lembro-me de quando no 7º ano, tive de escrever algo acerca de uma estatua ao pé do Galiza no Porto... O que dizer??? Saí-me mais ou menos, mais ou menos. Admito contudo, que não me passou pela cabeça fazer um conto...

8/11/06 09:58  
Blogger tb said...

Olha, nem sei se me ri mais com o teu conto, do que com a resposta aqui do amigo rui.
Admiro a tua forma de contar...
jinhos

8/11/06 10:40  
Blogger segurademim said...

... um café, está fora de questão, deixa-me aqui sossegado à espera do sol, que prometeu vir hoje e que tem falhado encontros nos últimos dias

ela fitou-o bem nos olhos e disse-lhe: és sempre um desmancha prazeres... lá terei então que ir ao café sózinha

8/11/06 11:15  
Blogger Joana said...

"....Até que, nas margens bucólicas daquele gentil curso de água, apareceu um camponês honrado e digno que se dirigiu ao altivo Narciso e disse:
- Ó faxavori eu queria uma frize coirato!"

8/11/06 11:26  
Blogger batista filho said...

em que pedra afias a tua caneta, meu amigo?
(como se não fizesses uso d'um pc!)
na realidade só mais uns confetes disfarçados de comentário sério... vê se não tomas o lugar do dito Narciso!! rss

sempre um momento bom essa passagem por cá, meu amigo. deixo o meu abraço fraterno.

8/11/06 13:09  
Blogger augustoM said...

Preocupações de deuses na terra, ter em conta os usos dos pobres terrenos, que gostam de ver mas não mostrar.
Um abraço. Augusto

8/11/06 17:39  
Blogger Sofia said...

E tu se me pudesses ver, verias o sorriso com que acabo sempre ao ler os teus textos!

bjs

8/11/06 17:47  
Blogger sotavento said...

Eu só gostava de saber o que é que tu sabes sobre o presidente da câmara de pombal, o Narciso!... ;)

8/11/06 21:48  
Blogger lélé said...

eu vi as estátuas moverem-se, juro!... e ouvi as falas... pois é verdade, elas movem-se!... e depois, quando cheguei aqui, ainda vi as rivalidades nos bastidores!... essas estátuas são grandes atrizes e "atrazes"!...

8/11/06 23:15  
Blogger APC said...

Nunca perco a viagem aqui. Se há coisa nova, delicio-me; se não há, rio-me com os comentários; à 3ª releio-te! É buéda fixe! :-)

9/11/06 02:24  
Blogger Licínia Quitério said...

Entusiasmada, telefonou às amigas dando conta do chorudo negócio que aí vinha por parte de seu amado esposo.
Na semana seguinte, as revistas cor-de-rosa traziam na capa: "O maior áqua-parque da península" e a foto do casal. Ele de cântaro, ela com um seio desnudo.

Beijinhos, Senhor Alberto.

9/11/06 13:39  
Blogger Rui said...

Narciso saiu da Tasca da Coxa a assobiar a Rosa Tirana. Equilibrava sem dificuldade a chávena de café que transportava para a sua amada.
Evaristo, que estacionava a caravana ao lado da de Narciso no parque naturista - e que com este mantinha acesa e prolongada disputa devidos a ruídos nocturnos - apareceu ao dobrar da esquina.
Narciso sentiu o sangue ferver-lhe e entornou uns pingos de café no pires, que se queixou.

- Épa, queimaste-me!
- Desculpa lá Pires, mas sempre que vejo aquele gajo, passo-me.

Evaristo lançou um olhar trocista aos dois homens.
Narciso tentou controlar-se, mas não conseguiu.

- Pires, segura-me na chávena. - E, ao cruzar-se com Evaristo, gritou: - Oh Evaristo, tens cá disto? - E apontou para baixo.

Evaristo ficou possesso e logo tratou de agarrar no que tinha à mão para atirar aos dois amigos, que fugiam agora a sete pés, rindo como crianças travessas.

- Narciso, pá, entornei o café todo.
- Não faz mal, Pires. Era pior se tivesse sido em cima da roupa, que isso deixa uma nódoa lixada.

9/11/06 16:10  
Blogger Klatuu o embuçado said...

Sempre difícil a vida dos Narcisos... e com morte predestinada... ;)

9/11/06 18:08  
Blogger Maite said...

Caro Legível

"Tantas vezes o cântaro vai à fonte" que um dia o nobre Narciso o deixa cair fatalmente e se desfaz em mil pedacinhos. Mas lá estará a sua ninfa para apanhar os valiosos "cacos".
Uma bela imagem a sua a acompanhar a não menos bela perspectiva apanhada pela sua objectiva.

Tenha um excelente final de tarde

9/11/06 19:10  
Blogger passarola said...

Narciso.. não estava careca de saber, pois tinha uns belos caracóis.. mas da sua profunda reflecção sobre a natureza da sua esposa.. uma coisa tinha a certeza - nunca deveria levar a sério as palavras dela.. quando ela se lhe apresentava.. com as mamocas de fora.. ;)

9/11/06 19:39  
Blogger inBluesY said...

eu bem que já não via a estátuas da mesma forma que os restantes, mas agora, desde que frequente certas fantasias, vejo lhes sorrisos.

e depois ler os comentarios do rui, é um 4 em 1 :)

9/11/06 22:03  
Blogger bell said...

Este Narciso parece-me um pouco gay. Sempre agarrado ao cântaro, quase nu, sem pêlos no peito, farta cabeleira bem tratada, a desdenhar da roupita da esposa,...

9/11/06 22:04  
Blogger Bel said...

Mas à terceira a o cantaro parte.
um abraço

9/11/06 22:34  
Blogger alfazema said...

Então não foram "prantar" o Narciso mesmo em frente de uma fonte? Mirou-se e apaixonou-se por si próprio. Auto-enamorou-se. Isto deve-se ter passado lá para a Grécia, ainda Cristo não tinha nascido.Claro! E agora vem aqui um certo menino falar da Musgueira. Afinal o que é que tem contra tal parte do planeta?
Ai, ai o que por aqui ando a ler nos blogs. Será que o Narciso terá ido buscar esta donzela à feira da Luz? Só pode ter sido outro! Estou a ficar sem paciência, porra!
Beijinhos
Beijinhos

10/11/06 06:54  
Blogger Velutha said...

klatuu, Augustom,Rui, Lícínia... tou a gostar desta tertúlia própria dos humanos mas onde os deuses não faltam. E estes deuses até têm a escola toda ou não fossem eles deuse...gregos...musculados...E juntou-se-lhes uma bos trupe.vamos mas é todos comer uns couratos, beber um copo e curtir a noite.Lá para os lados do Bairro Alto. Pode ser?
Continua Rui, tu conheces bem Lisboa. Deixa o velhote em casa a trincar a fartura.
Beijos para esta "cambada" toda.

10/11/06 14:26  
Blogger Sandra Cardoso said...

A Ninfa olhou, pela primeira vez ,para si. As palavras de Narciso torturavam-na como um espinho "A bela figura que fazes...".

Levantou-se, pegou no cântaro, e partiu-o na cabeça do seu Narciso, que passou o resto dos seus dias à procura de todos os cacos, tentando remediar o impossível.

11/11/06 08:46  
Blogger Sea said...

vai tantas vezes que é uma canseira :)
não havia um poema qualquer, que ela ia formosa à fonte? Não era a Leonor?
Mail do blog, please!
beijos

11/11/06 09:15  
Blogger Maria P. said...

"TANTAS VEZES o CÂNTARO VAI À FONTE..."

...que hoje se partiu e veio desejar bom fim de semana!

Bjo.

11/11/06 12:48  
Blogger APC said...

Cá para mim ela é canhota, porque aquela mão esquerda assim no ar, hum... Afiançava bofetada e da grande, não fora a frivolidade do casório dos olímpios tê-los glaciado de uma trago no aceso da discórdia. Aliás, ninguém me tira que houve ali dedinho de Apolo, impondo-se a Dionísio e evitando assim uma "tragédia" maior! [Xi, esta foi um cadinho a levantar voo...!*]

* Gracinha com a A Origem da Tragédia, de Nietzsche (a esquecer, pf!)

11/11/06 22:29  
Blogger bettips said...

Um gosto de ler, um gosto de ver... ainda para mais VIENA e as estátuas/jardins por todo o lado. Perfeito. Muito interessante o fio da tua imaginação à solta!

11/11/06 23:11  
Blogger pintoribeiro said...

Pois. Bom domingo, abraço,

12/11/06 11:21  
Blogger A said...

Um outro olhar sobre a exímia A.rte de esculpir a pedra.

Haja o teu olhar sobre a A.rte de bem escrever.

Com humor...

Bravo, Alberto :)

18/11/06 16:45  

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