Saturday, February 04, 2006

MEMORANDUM



















Estava uma manhã de sol mas muito fria; tão fria como outras manhãs de outros Invernos mas que continuamos a garantir que não temos memória de um frio assim, tão intenso... Talvez a memória curta seja o álibi para um início de conversa com o vizinho do lado no transporte, num diálogo onde podem perfeitamente caber as últimas sobre o horrendo crime da jovem assassinada na flor da idade e violada depois de morta, a neve que caiu na zona da Grande Lisboa ou o cataclismo verde que se abateu sobre a Luz.
Estava frio, sim senhor, mas nada que não se suportasse. Estranhei, isso sim, que naquele local, a cidade estivesse tão desafogada de gente e quando os ponteiros do relógio caminhavam céleres para o meio-dia... No Largo da Misericórdia, apenas um grupo de homens que pelo aspecto, gozavam os desfavores da magra reforma, jogavam às cartas de caras fechadas. No alfarrabista nem vivalma e na tasca da esquina, uma mulher de idade indefinida e pobremente vestida, encostada ao balcão e próxima da porta, olhava sonhadora para a fila de garrafas de vinho, alinhadas numa prateleira, enquanto bebia um café.
Prosseguia o meu percurso, quando um sujeito atravessou a rua na minha direcção e me perguntou se «Estarei no caminho certo para a cervejaria Trindade? Sabe por acaso onde fica?» Apontei-lhe um dos veículos estacionados no lado oposto da rua e disse-lhe que «Se olhar para os vidros laterais daquele carro, distingue a cervejaria; no quarteirão logo a seguir à livraria» Agradeceu apressado e foi à sua vida. Ainda me quedei por uns momentos a olhar na direcção do carro que tinha referido ao meu interlocutor; inscrita na parede, a palavra REPÚBLICA fez-me recuar num tempo tão longe que o sentia tão perto. Depois, aconcheguei a gola do sobretudo ao pescoço, desci até ao Chiado e misturei-me com a multidão.
Foto de: Alberto Oliveira.

30 Comments:

Blogger clotilde said...

Uma realidade muito bem escrita.
É bom misturarmo-nos, é quando realmente conseguimos distinguir a nossa essência.
Bom fim de semana!

3/2/06 17:26  
Blogger Joana said...

Opá! opá!
Eu passo aí quase todos os dias! Que excitação!
Olha, viste o gato que esta na montra da livraria a dormir!!

Desculpa já não vir cá a algum tempo, mas como eu sei tu estas sempre em alta! :)
E sempre bom ler-te!

bjs bom fim de semana

3/2/06 17:42  
Blogger sotavento said...

(risos)
É que nem penses que vou falar disso!... A mim não me apanhas em baixarias!... ;)

3/2/06 18:10  
Blogger manhã said...

Essa zona da Trindade, dos alfarrabistas, dos teatros, é mesmo entre todas a eleita, a que faz jus à Républica.

3/2/06 20:25  
Blogger lélé said...

Legível... hoje tenho que dizer o que penso e que já tá aqui a moer há muito tempo... TU ESCREVES TÃO BEM!

4/2/06 02:30  
Blogger segurademim said...

É engraçado que nesse sítio, tão bem descrito por ti, se encontram quase sempre pessoas em visita e a fazer perguntas para se orientarem no local. Ainda ontém, quando me dirigia para o teatro três moços me perguntaram se o Largo do Carmo ficava muito longe. Mais à frente à porta da cervejaria, um grupo de italianos, em "atropelo" de quem se encontrava já lá, iam entrando mesmo na dúvida se era o restaurante que pretendiam...

Sobressai uma cidade e um local cosmopolita, by day or night, cruzando inevitavelmente gentes, interesses, motivos, curiosidades!!

Lisboa, a minha cidade de naturalidade e pertença a ponto cruz bordada, a de luz ímpar à beira mar estendida!

4/2/06 17:53  
Blogger  said...

Para quem escreve coisas malucas e pouco trabalhadas...olha que este texto está fora dos teus padrões, se é que me entendes!

4/2/06 18:30  
Blogger Lagoa_Azul said...

Oh pá assim não vale :( eu não conheço, vou falar do largo da minha vila, em que quem por lá passa fica horas a conversa ali mesmo na estrada, em que o cãozinho se atreve a dormitar a meio caminho no alcatrão sem ser atropelado...
Agora seu interesseiro, aqui vão os beijos que sempre deixo, mas antes quero desejar-te um bom fds, agora sim, beijos com carinho..

4/2/06 21:24  
Blogger mixtu said...

excelente texto e agora estou aqui a remoer, é só para o perceber... republica, regime ou de estudantes?

5/2/06 09:16  
Blogger JL said...

Hoje não consigo dizer outra coisa senão: Como invejo a sua escrita e o seu talento, Legível! :-)

Um boa semana

5/2/06 16:26  
Blogger legivel said...

Para clotilde:

As pessoas são o sangue circulando, nas artérias citadinas... .

5/2/06 22:03  
Blogger legivel said...

Para joana:

Deve ter sido por pouco que não nos cruzámos!...

Já o tenho visto, já; mas nesse dia não.

Bjs e óptima semana!!

5/2/06 22:07  
Blogger legivel said...

Para sotavento:

Podia ser que estivesses distraida...

(gargalhadas)

5/2/06 22:09  
Blogger legivel said...

Para manhã:

Esta pedaço da cidade (do Chiado ao Rato com o Bairro Alto dentro) tem a ver com algumas das minhas memórias citadinas. Revejo-as com a frequência que o destanciamento permite.

5/2/06 22:16  
Blogger legivel said...

Para lélé:

És um pouco como eu; gostamos muito de... dizer coisas. Mas a essa que escreveste, o que hei-de dizer?!
Que agradeço o comentário e que o prazer de escrever é mais forte do que eu... .

5/2/06 22:24  
Blogger legivel said...

Para segurademim:

Tem sido cá um corropio nessa rua!
Estou a ver que um dia destes, o pessoal dos blogs, assenta aí arraiais...

"... da luz que os meus olhos vêem, tão pura;
...............................
pregão que me traz à porta, ternura... "

5/2/06 22:36  
Blogger legivel said...

Para pé:

É possível; mas não foi com intenção! E eu sou um pedaço distraido, o que ainda vem complicar mais as coisas...

Claro que te entendo...

5/2/06 22:40  
Blogger legivel said...

Para lagoa azul:

Deve ser mesmo uma vila pacata; sem trânsito, pelos vistos. Que um cão a dormitar no meio da rua sem ser atropelado... A menos que os carros tenham asas!
Pronto; da próxima vez escrevo sobre locais mais conhecidos. Pode ser sobre Krestovka?
Interesseiro? eu?! Ná, nem por isso...

Beijo amigo e boa semana!

5/2/06 22:50  
Blogger legivel said...

Para mixtu:

Nem de um nem de outro; de jornal diário, vespertino e de referência (antes e depois) para a jovem democracia portuguesa.

5/2/06 22:54  
Blogger JPD said...

Presumo que estejas a referir-te ao Jornal dirigido por Raul Rego. Se estiver certo, partilho essa emoção contigo. Lembro-me claramente da importância que o diário tinha no quotidiano lisboeta e o relevo que as edições do Diário de Lisboa acrescentavam. Do Funchal vinha também um sopro nas edições do Vicente Jorge Silva.
Um abração
(Quanto à Cervejaria Trindade, oh que belas recordações, que bela cerveja!)

5/2/06 22:58  
Blogger legivel said...

Para jl:

E o que hei-de eu dizer? Que estas manifestações de simpatia me deixam deveras agradado? Deixam pois.

Uma óptima semana também para si!

5/2/06 23:02  
Blogger legivel said...

Para jpd:

Caro José:

É exactamente a esse que me refiro; e a que tu juntaste outros não menos importantes: o D.L e o "Comércio do Funchal"; este último mais recente que o "República" e o "Diário de Lisboa" e que além do V.J.S. contava com os nomes de Fernando Dacosta, José Freire Antunes e José António Saraiva... entre outros.

Abração.

5/2/06 23:15  
Blogger batista filho said...

T'aqui uma pérola, amigo!... daquelas de se guardar com maior carinho porque - nunca se sabe, né?... calha um dia de fazer uma coletânea...
Um abraço fraterno.

6/2/06 00:45  
Blogger @ said...

E este fim-de-semana foi quase igual ao último. Ficou a faltar a parte melhor... a neve.

6/2/06 11:04  
Blogger legivel said...

Para batista filho:

Vou guardar, vou; para os meus vindouros lerem e pensarem. «Que coisas estranhas se passavam naqueles conturbados tempos...»

Abraço amigo.

6/2/06 11:31  
Blogger legivel said...

Para @:

Mas... "isto da neve" era todos os dias?!
Quem me dera a mim é que venha o Sol; e quanto mais depressa melhor!

Óptima semana!!

6/2/06 11:33  
Blogger Rui said...

Há duas semanas, feitas no sábado, tinha eu o plano fantástico de ir ao jardim de S. Pedro de Alcântara e, de caminho, deitar a baixo um prego na Trindade, quando percebo que o jardim está cercado por arame e a Trindade cheia de nórdicos com uma coleira da Nokia. Nem vi a vista nem meti o dente no prego.
Vinguei-me na concorrência: foi uma bifana no Beira-Gare.

7/2/06 16:38  
Blogger I said...

mas na esquina não se trata de uma tasca , mas sim de um velha leitaria com algumas das paredes forradas até meio , com tábuas de madeira, corridas, verrticais e pintadas de amarelo grão. uma leitaria! lembram-se das leitarias de Lisboa? Uma sobrevivente. Como eu gosto do largo da misericordia e do outro, um pouco mais abaixo, o do carmo, e de entrar nas ruínas que para tão longe nos levam dos ruídos da cidade. magicas, as ruinas do carmo, não são? e la dentro, no nucleo arquelogico, abriram uma janela enorme , na parede, frente ao castelo de s. Jorge .Fabuloso o que dali se avista. E a estranheza de tudo aquilo observar, rodeada de múmias vindas do Egipto , astecas em mau estado, vindos das americas...e ver a cidade la em baixo, tão luminosa nos dias de sol, tão clara assim ao longe, tão desarrumada num negligée encantador , assim, para quem vê de longe.Como é bom olhar de longe, ver de longe.Ver de cima, ver de fora.

8/2/06 10:37  
Blogger legivel said...

Para rui:

Por vezes é na concorrência que nos tratamos melhor...

9/2/06 17:59  
Blogger legivel said...

Para i & c:

Hoje não que já é quase noite cerrada; mas domingo passo por lá para me certificar da tua informação (que tenho como boa...). Ia jurar que aquilo (embora nunca lá tivesse entrado e as garrafas na prateleira mais a velhota fossem ficcionadas...) sempre tinha sido uma tasca...

9/2/06 18:02  

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