Thursday, November 24, 2005

OS DIAS NÃO SÃO TODOS IGUAIS



E ainda bem que não são por causa dessa história a que chamam monotonia. Lembram-se que ainda ontem e ante-ontem e nos dias anteriores choveu a potes e quando não era a potes a água caia muito certinha sem parança que é a pior das chuvas; não faz intervalo para um cidadão dar uma corrida para um abrigo de jeito. E de um momento para o outro, o golpe de asa da mágica natureza: o dia de hoje, fantástico de sol aberto!... pelo menos aqui para as minhas bandas. Mas certo, certo, é que eu até gosto de chuva e não me enervo ou entro em parafuso, se me cairem uns pingos na cabeça ou na indumentária. O que na realidade detesto -e aí sim, vou aos arames, é do estado em que se encontram os passeios da maior parte das ruas da Grande Lisboa de tal modo, que à cautela, se vamos andar a pé em dia de água certa, o mais avisado será levar um mapa com os incidentes de terreno, assinalados em levantamento efectuado antes com bom tempo, não vá o diabo tecê-las.

Isso leva-me ao outro aspecto da questão e de que hoje me propus escrever; o modo como se tecem e entrelaçam as realidades e os imaginários que vamos construindo em nosso redor, segundo-a-segundo e a maioria das vezes sem darmos conta de tais empreendimentos uma vez que os nossos sentidos, de um modo geral, estão mais apostados no imediatismo da imagem e da oralidade que na pausa -por breves minutos que seja, para reflectir.

Hoje, logo pela manhã, a minha-mais-que-tudo (há uns tempos que a não trazia aqui, à colação, eu sei... mas ela nunca gostou de se ver nas bocas do mundo e está-me sempre a repetir «Estou careca de te dizer que não quero que me cites nessa coisa horrorosa do bilogue que ainda para mais é lido por milhares de pessoas e elas a saberem das nossas intimidades! Que coisa!!» ), levantou-se, vestiu o roupão-azul-celeste-argentino, foi à varanda e não tinha passado um segundo quando me gritou «Anda cá Lé! Anda ver uma coisa que aconteceu na rua!!». Estremunhado, mal acordado de um sono que devia ter continuado por mais umas horas, pensei de imediato "mais um gajo que ficou debaixo do combóio, está visto!", que o combóio passa mesmo aqui ao pé da porta e às vezes até dá vontade de o apanhar em andamento, mas não senhor; a estação dista da casa cerca de dois quilómetros!. Levantei-me a contragosto... mas levantei-me e lá fui à varanda.

A minha-mais-que-tudo tinha razão. Para a esquerda, em direcção ao mar, a rua estava dividida em duas partes distintas; numa, lá estavam as casas a carecerem de pintura, os carros estacionados em cima dos passeios (com buracos e pedras soltas), os contentores do lixo bem abertos e os remendos no asfalto irregular. Na outra, só havia o traço e a cor (predominantemente azul) e as malhas que alguém teceu, numa paisagem-contraponto à da realidade urbana. Eu vi. E a foto está aí.

Óleo e fotografia de: Alberto Oliveira.


36 Comments:

Blogger manhã said...

eheh! Pois passa aí o pincel! Quero ver se dou um jeito de verde aqui no bairro onde só há branco e cinzento!

23/11/05 19:49  
Blogger Lagoa_Azul said...

Que sorte a minha, tou mesmo a ver, foi uma homenagem a mim...lol...mas gostei da sugestao, axo que na proxima assembleia vou propor que se pintem as ruas de azul ;)
Felismente que a minha paizagem não é assim tão urbana como a tua...

23/11/05 19:50  
Blogger SalsolaKali said...

(LLOOLOOLLO)

Ora...

(LOLLOLLL)
(LOL)

Bem que finalmente aparece alguém para me contrariar a velha mania de dizer que os dias são todos iguais...
A tua Maria tem razão, sabes?!. Não devemos trazer ao barulho a vida íntima das Marias… elas detestam que se digam as verdades… nem havia necessidade de ficarmos a saber que ela tem um roupão azul celeste argentino…

Mas deixa-me dizer-te que até vives num bairro com passeios.
Imagina se não os tivesses. Melhor, se nem bermas tivesses… ou se as tivesses, estariam cheias de lama… Agora imagina que era esta a estrada que os teus filhos fariam para ir para a escola… e que ainda por cima tem vários carros estacionados a ocuparem metade da via… para estes lados ainda há estradas assim…
Adiante.
Gosto da vista da tua varanda em dias de sol, embora tb goste da vista das nuvens em dias de chuva.
;)
BJ GR
SK

23/11/05 19:51  
Blogger Lia C said...

E é como se o traço e a cor e as malhas que alguém teceu pudessem tapar os buracos e os carros e a fealdade de alguns dias sem sol. Não sei bem porquê, esta tua composição fez-me lembrar a "luta" entre o pricípio do prazer e o da realidade por causa disso - parece uma janela.

bjs

23/11/05 21:07  
Blogger I said...

Entre o óleo e a fotografia escolho o óleo. Muito bonita essa paisagem a óleo que vês da tua varanda!

24/11/05 00:05  
Blogger segurademim said...

... eu sabia que a megalomania ataca o mais comum dos mortais!! oscilamos assim entre o triunfo e a humilhação... uns vão mais para cima outros mais para baixo; ou seja, uns mais para o maniaco outros mais para a depressão...

Por falar de depressão, não me parece que seja ou venha a ser algo que te ataque... até porque és lido por milhares de pessoas ó Lé ...

A tua-mais-que-tudo que se conforme e já agora diz-lhe para mudar a cor do roupão que azul-celeste-argentino, está completamente démodée!!!
ó Lé o natal está quase à varanda,
que tal um roupão vermelhinho??!!
ahahahahah
;)

24/11/05 15:18  
Blogger manuel said...

As duas faces da (mesma) realidade. Entre a arte e a vida vai a curta distância de um olhar...

Achei fabulosa a ilustração. Abraços

24/11/05 16:42  
Blogger  said...

O óleo está muito bem, e parece sempre melhor a forma como representamos a realidade.
Tu representa-la mesmo bem e causas sempre uma bela gargalhada:)

24/11/05 20:57  
Blogger amok_she said...

...eu, completamente ignorante q sou, ñ consigo ver se isto é oleo...ou margarina!;-)...mas gosto da poesia do teu olhar...é qt me basta!, deixo a técnica com os técnicos...;-)

24/11/05 21:33  
Blogger JPD said...

bela «pintura», amigo.
O texto está excelente.
Não se tratando de baixo/alto relevos, deixaste-nos um mural de se lhe tirar o chapéu.
Muito bom.
Um abraço

24/11/05 22:33  
Blogger UGAJU said...

Vives num bairro integrado... podes deixar o carro na rua, não arde! Abraço

25/11/05 08:48  
Blogger Marco Ferreira said...

Muitas vezes penso que melhor do que cor num prédio/casa seriam muitas cores.

Sinto em algumas alturas inveja de quem pinta bem porque assim dava beleza às casas pobres e sem graça.

Cada vez mais gosto de arte urbana.

marinheiroaguadoce a navegar

25/11/05 12:39  
Blogger sotavento said...

Fico contente de ver, ao vivo e a cores, um sonho sonhado a dois!... :)

25/11/05 13:38  
Blogger legivel said...

Para manhã:

É só pedires! Eu e a minha equipa de "pintores de bairros tristes", estamos cá é para isso!
No Porto já pintámos o bairro da Boavista, que antes tinha outro nome, como se depreende... Em Lisboa, o Bairro Azul também fomos nós que o pintámos.
Em suma; andamos para aí a pintar a manta...

25/11/05 18:44  
Blogger legivel said...

Para lagoa azul:

Como acertaste, não sei; mas foi mesmo uma homenagem a ti.
Primeiro, pensei em homenagear-te com flores mas achei demasiado simples. Depois com uma placa comemorativa oferecida pela junta de freguesia cá do sítio. Ainda não satisfeito (porque tu mereces mais) lembrei-me de uma daquelas faixas que se pôem nas misses, com os seguintes dizeres "Miss Lagoa Azul, Sempre! De outra cor, não! 2005". Também não me convenceu.
Até que editei este post. É isto mesmo! Com um lacinho de seda e tudo!

25/11/05 18:57  
Blogger legivel said...

Para salsolakali:

Mas está mal! Já não deviam de haver...
"eles falam, falam, mas depois não fazem passeios....

Mas a minha Maria até nem é das piores, justiça lhe seja feita. Mas tem dias; imagina que ontem me perguntou assim «Ó Lé! e se com o dinheirinho que a gente tem aí de parte ´fôssemos dar a volta a Portugal, que nunca saimos daqui?!» Custou-me, mas tive de ser duro ao responder-lhe «Atão ó mulher!? O dinheiro que temos aí não chega para comprar uma bicicleta, quanto mais duas!»

BJ GR

25/11/05 19:07  
Blogger legivel said...

Para lia c:

É mesmo uma janela... aberta para uma realidade pouco satisfatória no que se refere à qualidade de vida dos cidadãos... que as cores e as formas de um "cenário simpático" não iludem.

A realidade pode mascarar-se; mas "o carnaval dura apenas três
dias". A propósito?! nunca mais é natal!

bjs.

25/11/05 20:18  
Blogger legivel said...

Para i&c:

Adquiri-a num leilão no Cairo. Nesse dia perdi a cabeça; comigo vieram também um Van Gogh e um Turner, falsos como Judas. Estes dois, vendi-os em Estocolmo a um jamaicano por bom preço.
Esta tela, ficou para sempre minha e próxima da varanda. Porque nunca tive um papagaio...

25/11/05 20:27  
Blogger legivel said...

Para segurademim:

O roupão é para a vida inteira que temos de fazer poupanças para a velhice.
Há prioridades que devem ser acauteladas como por exemplo:

1 - O pagamento atempado da quota de associado do Sporting Ginásio Club de Oeiras;
2 - O dinheiro para o tabaquinho. Ela não fuma mas eu não tenho culpa;
3 - Os jantares regulares com os camaradas de armas do Batalhão de Telegrafistas .

Não refiro mais prioridades, para não pensarem que é tudo para mim.


PS: Também não tenho culpa de ter milhares de comentários... embora eu saiba que escrevo muito bem e não tarda nada vou publicar um livro, qué que pensas?!

25/11/05 20:40  
Blogger legivel said...

Para manuel:

Eu preferia as faces de muitas moedas (e notas e notas!) que era sinal que esta cena estava a dar dinheiro.
Acho que fiz um mau negócio ao sair da Rua Augusta (onde tocava flauta, enquanto uma jovem seminua dançava a dança do ventre. (Ninguém reparava que eu não sabia tocar; sobretudo queriam era tocar na jovem seminua!).
Troquei essa vida por um blog e a minha-mais-que-tudo só dança boleros...

Abraços.

25/11/05 20:46  
Blogger legivel said...

Para pé:

Ainda bem que te ris. Que eu vejo para aqui tanta tristeza, que não me chegam os lenços para enxugar as lágrimas... de crocodilo.

Está finalmente provado que os crocodilos choram... quando assistem à "Primeira Companhia" na TVI.

25/11/05 20:58  
Blogger legivel said...

Para amok_she:

"Óleo ou margarina"?! E consultaste uma vez mais a lista de compras na grande superficie. Já nem te lembravas do azeite...

"A poesia do meu olhar"... se soubesses da grossura das minhas lentes julgarias que eram anti-bala. E dos olhos, um tudo nada enviezados...Ah! sim; a poesia faz-nos destas partidas...



Mas

25/11/05 21:10  
Blogger legivel said...

Para jpd:

Nunca tirei o chapéu a um mural; aliás, defensor incarniçado da amoralidade muralista, dificilmente o faria.
E porque não uso chapéu.

Abração... e um óptimo fim de semana!

25/11/05 21:38  
Blogger legivel said...

Para ugaju:

Como é que ele poderia arder?! Está coberto com um oleado preto à prova de fogo, as rodas tapadas com madeira-anti-cão e pintada a letras brancas garrafais (além da matrícula) a frase

Legivel-Médico de urgências

Abraço.

25/11/05 21:46  
Blogger legivel said...

Para marco ferreira:

Eu gostava era de um dia pintar o mar vermelho de... azul. É um projecto que já tenho há muito tempo, mas oneroso, devido à quantidade (e qualidade!) de materiais a utilizar.

Já consultei eventuais sponsors, mas até à data nada. Se quiseres contribuir, aqui segue o NIB para onde deves enviar o cheque:00000154472900025112005.
Obrigado.

25/11/05 21:58  
Blogger legivel said...

Para sotavento:

Um sonho sonhado a dois
é mais fácil de sonhar;
nada fica para depois,
depois... é só acordar.

25/11/05 22:00  
Blogger amok_she said...

...desculpa lá!, a margarina e o oleo podem substituir-se entre si, mas... nenhum deles substitui o azeite... virgem!

...e quem falou nos teus olhos?...eu só referi o teu olhar...poético, é certo, mas...olhar e não olhos!

ai...ai...ai...

dahhhhhh

25/11/05 23:05  
Blogger A.na said...

Nem as madrugadas,estas minhas...
Deixo a passagem breve e leve,
deixo por cá a minha mão
num abraço...

26/11/05 05:52  
Blogger legivel said...

Para amok_she:

Azeite virgem?! Que idade tem?

Pronto, pronto; já tirei os óculos e corrigi a posição dos olhos...

Ui...ui...ui...

26/11/05 12:15  
Blogger legivel said...

Para a. :

Uma passagem breve e leve anotada no diário de bordo... Aos vinte e seis de novembro de novembro do ano da graça (risada) de dois mil e cinco, a cinquenta milhas náuticas da lagoa de albufeira, com brisa leve pela proa e cardume de sardinhas a estibordo.

Abraço

26/11/05 12:22  
Blogger Joana said...

que bonito!
quem me dera que um dia as papoilas do Monet florissem na minha rua!
:)

26/11/05 21:33  
Blogger legivel said...

Para joana:

Infelizmente não será ´fácil. Pois se uma simples árvore ou relvado é "um castigo" para se erguer*

*Os espaços verdes não "vão lá" nem com viagra, passe a publicidade...

26/11/05 22:40  
Blogger amok_she said...

...desculpar-me-ás, mas...azeite virgem, ñ sendo como o vinho do porto, convém q seja jovem!!!...e sobre idades, mais ñ digo!!!grrrr

27/11/05 18:54  
Blogger batista filho said...

Enão é que eu também vi?! Vi???Se o digo... depois d'uma pequena e salutar hesitação - já posso afirmar: vi!
(vi mesmo?...)

Prá lá dessas interrogações, exclamações e reticências, numa coisa ao menos não tenho nenhuma dúvida: esse texto ficou danado de bom.
Um abraço.

28/11/05 11:54  
Blogger legivel said...

Para amok_she:

Não digas, não. Olha que eu coro com muita facilidade...

28/11/05 22:59  
Blogger legivel said...

Para batista filho:

Ái de nós se não tivéssemos interrogações, hesitações e... visões. Seríamos a perfeição... em figura de gente.

Abraço.

28/11/05 23:03  

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