Saturday, October 01, 2005

FÁBULA MISTA sem MANTEIGA

Era uma vez o meu dono (assim se imaginava ele...). Mal se tinham começado a ouvir os primeiros ruidos dos carros na rua, tirou-me cuidadosamente do pêlo do cão -este sim, escravo e lacaio assumido e me informou sorrindo simpáticamente «Hoje, vou fazer-te uma bela surpresa; prepara-te que vamos sair!». Porque já sei o que a casa gasta , devo pô-los ao corrente que sorriso simpático + prepara-te! significa ordeno-te! . Às nove, introduziu-me naquela caixa de fósforos com buraquinhos minúsculos (não fosse dar-me o trangolamango) , que tresanda a bafio e que pelo design deve ter sido usada pelo avô do seu trisavô.
Por volta das dez, eis-nos a entrar no estabelecimento de pronto-a-vestir masculino do conceituado e finérrimo Prosa & Ameixoeira . O meu dono (pensava ele...) de imediato chamou pelo gerente. Este, ao surgir dos fundos curvou a marreca (sinal de outros tempos) e inquiriu «Vosselência... o que deseja desta sua humilde casa?». Altivo, mas de sorriso condescendente (aquele que se usa para a arraia miuda em tempo de vacas gordas e magras), ordenou: «Quero um fato de boa fazenda e de corte actual aqui para a minha pulga-macho».
Ia-me caindo tudo mas mesmo tudo , aos pés. Então não é que o sacana deste meu dono (convencia-se ele...), tem a distinta lata de me querer ver enjorcado da cabeça aos pés?! E sem antes, ter a amabilidade de me perguntar se eu gostava, sabendo que sou um acérrimo defensor -e praticante, do naturismo?!. O meu dono (como estava equivocado...), perdeu o pé de vez; porque de quando em quando lhe animo os dias cinzentos com umas quantas habilidades e palhaçadas de pulga-macho bem disposta com a vida, imagina que isso lhe dá o direito de me ter na mão ; de lhe dizer tudo o que me vai na alma ou de me vestir o corpo segundo os seus padrões. Ele pode perceber de cães; de pulgas-macho não. O meu dono nunca o foi; e se o pensou, era uma vez.

27 Comments:

Blogger SalsolaKali said...

Este texto fez-me lembrar o livro Papalagui.
Era uma vez...
(tu devias escrever uns contos, não tanto de ficção cientifica mas mais do fantástico...)
:D
BJ SK

30/9/05 17:17  
Blogger JPD said...

Este texto é um desafio excelente por exigir, mais do que habitualmente, de quem o lê. Há aqui uma necessidade premente de insubordinação mas também um certo temor de afrontar o poder estabelecido, »o dono»! Belo texto amigo.
Um abraço
(Agora que a Caravela D. Fernando e Glória vai aí oara Almada que tal uma aventura nela!
Mais um abraço.

30/9/05 22:34  
Blogger m.btfly said...

when i read these kind of lines i always remember how weak we can be...we are manipulated, somehow, in all our acts and attitudes, and when we think we have the power to be independent and free ourselves, someone apppears and the cycle begins...we are always manipulated and we always manipulate others...that's why our life is an inner revolution which never stops screaming for help that never comes...h&Kss

1/10/05 08:21  
Blogger segurademim said...

E logo a ti que és um indisciplinado, um rebelde ...
claro que és um pulgo sem dono, sem cangas e compromissos; entendi-te o compromisso possível, contigo - é o da vadiagem... e as vontades dominantes já eram a tua cena é a de saltar, saltar... e por vezes és apanhado numa caixa de fósforos com buraquinhos; agora de fato de boa fazenda e de corte actual ??!! é demais, tens toda a razão, não dá !!! e os donos e candidatos a donos que se lixem, que tu tás bem acompanhado e tens pulo suficiente para "agarrar" outros cães e quiça cadelas !!! é isso, força, força, e viva a liberdade !!!???

1/10/05 10:20  
Blogger sotavento said...

Agora é que fiquei sem palavras!... O que é que uma pessoa pode dizer, de jeito, a uma pulga?!... :)

1/10/05 11:54  
Blogger Nina said...

De blog em blog vim ter ao teu e gostei :)

Volto para te "ler".

Beijinho e Bom FDS :)

1/10/05 12:20  
Blogger mood said...

Adorei...Gostei da óptica com que foi feito o texto, do tom, do conteúdo. Adorei, já disse não já?
:)

1/10/05 16:42  
Blogger manhã said...

Pulgas à parte, um bom fato e gravata fica bem a qualquer homem!

2/10/05 13:49  
Blogger manuel said...

Por uma vez, pá: não gostei desta "coceira"! sorry ... abraços

2/10/05 16:23  
Blogger legivel said...

Para Salsolakali:

Se tu soubesses o trabalhão (mas também o gozo...) que me deu a engendrar a dramatis persona* díptérica...
Os meus contos são todos fantásticos **

Beijos e uma boa semana, que o domingo está nos finais...

* Ando a treinar o latim.
** Opinião pessoal e transmissível.

2/10/05 21:34  
Blogger legivel said...

Para Jpd:

Aprecio os teus comments porque habitualmente procuras aprofundar o âmago das questões que levanto nos posts que edito. Outras (poucas) não, mas isso é pormenor e assunto teu...
Vejamos então. Sobre a insubordinação, estás certo; a pulga-macho foi expulsa por duas vezes (em anos diferentes) das escolas que frequentou.*
O temor de afrontar o poder estabelecido não me parece ler-se do contexto. Para mais, cinco anos em Caxias e dois em Paço d´Arcos, atestam a seu favor...da pulga.

Desde que o Pulo Tortas saíu do executivo,a marinha de guerra anda pelas ondas da amargura...

Abraço.

2/10/05 21:52  
Blogger legivel said...

Para Wiss:

Já percebi (depois de algumas e aturadas investigações...) que lês perfeitamente o que escrevo em português e respondes-me em inglês.
Porque domino razoalvelmente o idioma de Lord Nelson*, reservo-me o direito de te responder em...português e assim ficamos...empatados.
Tens razão (e como detesto ter de te escrever isto...) andamos todos a manipular-nos uns aos outros, é um forró dos antigos!, mas com o tempo, as coisas vão entrar nos eixos. Vais ver!

Beijos.

* Para os não especialistas adianto que Lord Nelson foi um reconhecido almirante inglês na reserva e que, aproveitando um momento menos bom de Ricardo Coração de Leão, lhe usurpou a baliza dos verdes.

2/10/05 22:15  
Blogger legivel said...

Para Segurademim:

Ó diabo! Tu és outra que tens algum pacto com o insondável?!
É que para me conheceres tão bem e comungares dos mesmos ideais libertários só podes...ter estado também em Caxias...espera; ou teria sido em Santo Amaro de Oeiras?!
Esta marginal marcou-me para o resto da vida...

Boa semana!

2/10/05 22:53  
Blogger legivel said...

Para Sotavento:

Embora não pareça, a comunicação é fácil; o alfabeto é composto por apenas cinco símbolos. Sorriem a toda a óra (o h não existe) e andam sempre a dar pulos de contentes.
As picadas, revelam a sua grande aptidão para analistas de sistemas... sanguíneos.

2/10/05 23:03  
Blogger legivel said...

Para Nina:

Obrigado pela visita. Passarei pelo teu blog.

beijinho e boa semana!

3/10/05 00:12  
Blogger legivel said...

Para Mood:

E o teu fim de semana? Foi daqueles "fabul...osos"?!

Uma óptima semana para ti.

3/10/05 00:14  
Blogger legivel said...

Para Manhã:

Desculpa lá estes "intermezzos" que de vez em quando "parecem ocorrer na blogsfera".

Não desgosto, não senhora. Um fatinho com uma gravata é o que, até por dever de ocupação, uso e...abuso!

3/10/05 01:29  
Blogger legivel said...

Para Manuel:

Pois é, meu caro. Esta história das pulgas...pega-se. Mesmo que não se goste, mal nos descuidamos (sobretudo quem gosta de fazer festas a cães...) lá temos uma coleira...perdão, uma coceira à perna!

Detesto coleiras, perdão coceiras; e o meu texto, na minha opinião, está muito bem conseguido*

* A opinião do autor, é essencial para a sua sobrevivência...artística.

Abraços.

3/10/05 01:39  
Blogger m.btfly said...

Pronto va lá escrevo.te em português, anda aqui uma moça a tentar escapr aos tentáculos de uma decepção de vida, tenta mudar de rumo sem olhar para trás e vens tu e pimba, desmascaras.me assim...ehehehe ainda bem que assim é só me torna inconfundível e gosto disso!!! (gaba.te cesta!!) espero por ti no meu novo espaço, algo deprimente pelos tempos que correm mas tudo passa!! H&Kss

3/10/05 10:33  
Blogger manuel said...

xiiiiii, Legível o que para aí vai! confundires coceira com coleira, essa com franqueza não esperava! ...

Uma boa coceira até é estimulante, já quanto a coleiras, acho que tenho o pesçoco grosso de mais... Imagina tu que até a gravata para o fato domingueiro é um castigo...

Em compensação aprecio âncoras, que seguram mas não prendem! mas aqui problema é saber e se a âncora prende em terreno firme...

Quanto ao texto está mto bem escrito, mas isso não é novidade para ti, como ficou demonstrado...rs

abraço, pá! tás a ficar azedo!

3/10/05 11:37  
Blogger manuel said...

Deve ler-se ...."se a âncora amarra em terreno firme"

3/10/05 11:41  
Blogger legivel said...

Para m. btfly:

Moça, não te deixes decepcionar com os tentáculos da vida; tens muito tempo à tua frente. Até para comer polvo... Que se pode papar quase de tantas maneiras como o bacalhau...
Beijos.

3/10/05 14:25  
Blogger legivel said...

Para Manuel:

Quase me apetecia dizer que a coleira serve no pescoço de quem a usa....
E, como leste, a coleira (embora por duas vezes) saiu cá para fora com o respectivo "perdão" a seguir...
Pelo que costumas interpretar dos meus escritos (fazendo fé nos teus comentários a propósito) não será caso para "te confundires". Digo eu, que de âncoras também gosto delas "em fundos seguros, amigáveis e...leais".

Azedo?! se soubesses o que me tenho rido nestes últimos dias...À séria!!

Abraços.

3/10/05 14:40  
Blogger batista filho said...

Realismo fantástico?! fantástico, não tenho dúvida.
:)
valeu :)
:)

3/10/05 15:20  
Blogger legivel said...

Para Batista filho:

Fabular o real
que pode ser fantástico
ou não;
da côr ao gesto
então,
os nossos sentidos
fazem o resto.

Abraço.

3/10/05 16:40  
Blogger Pyny said...

No mínimo, bastante criativo! A história está muito bem conseguida!

20/10/05 21:29  
Blogger Pyny said...

Com que então todos os textos são fantásticos? Em que sentido?? (A qual das palavras homónimas te referes? :P A ambas? Para mim são mesmo fantásticos!)

20/10/05 21:31  

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