Monday, May 12, 2008

O DOLOROSO DESTINO DE SER DECORATIVO








"E se nos deixássemos de rodeios e déssemos um valente mergulho no Spree ?" perguntou o cavalo que tinha o secreto sonho de um dia poder vir a ser marinho, ao cavalo que tinha a certeza de ser tímido -e por isso mesmo, apenas permitia que lhe fotografassem a extremidade do focinho. "Não estás bom da cabeça! Como se sentiriam as pessoas que já se habituaram a apreciar-nos ornamentando esta protecção sobre o rio? Defraudadas, claro. E na nossa ausência, que hipótese teríamos hoje de ilustrar um texto na blogosfera? Nenhuma, é evidente." O equídeo que perseguia o sonho de vir a ser cavalo-marinho, não queria acreditar no que ouvia do seu tímido parceiro "Desiludes-me. Além de te ser difícil assumires a condição de cavalo por inteiro, conformas-te com a condição de mero objecto decorativo. É por cavalos como tu -de limitados horizontes e garupa encolhida, que nos trazem sempre à rédea curta. Pois fica, que eu escolho atirar-me ao rio." E se bem o relinchou, melhor o fez: rasgou os ares num salto perfeito ao encontro da utopia. Uma criança que passeava pela mão da mãe, gritou na inocência dos seus quatro anos "Mamã! mamã! vi um cavalo a voar!!" A mulher olhou-a enternecida "Eu sei que tu és uma menina com muita imaginação, mas não deves ser teimosa: já te disse mais que uma vez, que neste rio só há cavalos-submersíveis".
Berlim, 2007. Texto e foto de Alberto Oliveira.

31 Comments:

Blogger Rui said...

Her Jurgen sonhava com salsichas e grandes canecas de cerveja. Sentado numa mesa corrida só sua, celebrava sozinho a Oktoberfest - em Maio. Sentiu, pois, profunda irritação quando o toque estridente do telemóvel o trouxe de volta à realidade. Reconheceu imediatamente o presidente da edilidade:

- Her Jurgen, precisamos de si. Urgentemente!
- Ja vol! - respondeu ao mesmo tempo que dava um salto para dentro das Lederhose.
- Estamos na ponte sobre o Spree, a dos cavalos. Venha rápido.

Her Jurgen bateu os calcanhares à frente do presidente da câmara, exactamente 17 minutos depois de ter desligado o telemóvel. Afirmou:

- Ao seu dispor.
- Eficiente como sempre, sim senhor. É disso que precisamos. Ora veja - e apontou para um buraco na protecção, em ferro, da ponte. - Mais um cavalo que se atirou ao rio. Este ano já foram quantos? - Her Jurgen ia responder, mas o autarca não esperou pela resposta. - Enfim, precisamos novamente dos seus préstimos, que em ferro forjado, não há outro como você.

O homem inchou a olhos vistos e cofiou o longo bigode grisalho.

- Ora, ora, bondade do...
- Mas desta vez, vamos ter de arranjar maneira de isto não se voltar a repetir, que o ferro está pela hora do passamento.
- Acho que tenho uma ideia...

E foi assim que, na manhã seguinte, o cavalo tímido se viu frente a frente com uma vaca leiteira.
De repente, a ideia de passar o resto dos dias de molho, não lhe pareceu tão disparatada assim.

13/5/08 22:01  
Blogger JPD said...

Olá Alberto

Salvo erro, foi Arrabal que fez um filme «IREI COMO UM CAVALO LOUCO»
Seria o caso desse teu equídeo que deseejava ser amfíbio, não voador, como o avistara a criança, e no entanto, tentando ir loucamente?

Provavelmente.

Bela prosa.
Gostei.

13/5/08 22:17  
Blogger lélé said...

Pela continuação da história feita pelo Rui, fiquei a perceber como é que aquela senhora sabia que naquele rio só havia cavalos submarinos... E, a ver pela argumentação usada para com o cavalo tímido, diria que os cavalos submarinos são arrojados, embora pouco inteligentes!...

13/5/08 23:46  
Blogger rosasiventos said...

smoke gets in your eyes!!!?

14/5/08 00:04  
Blogger bettips said...

Dizia eu...banda desenhada pela tua escrita. Não tarda a Sininho, o Principe Valente, o Reizinho...
Aristocrata, o cavalo que ficou bateu a asas e transformou-se em Pégaso, escarvando os céus!
Em breve se desiludiu: encontrou o buraco do ozono, e mal por mal, fica com o do déficit.
Abçs

14/5/08 04:20  
Blogger Joana said...

Este cavalo preferiu não esperar pela próxima encarnação e decidiu logo ser cavalo-marinho!
:)

14/5/08 11:23  
Blogger dona tela said...

Não, eu histórias destas nunca hei-de saber escrever. Onde é que o Senhor Oliveira aprendeu a escrever assim tão bem e com tanta graça? Desculpe lá a indiscrição.

Eu continuo a pôr umas brincadeiras no meu blogue. Vamos a ver se me aguento muito tempo. Aquilo puxa pela cabeça...

Até mais ver, Senhor Oliveira.

14/5/08 14:31  
Blogger L.Reis said...

Moral da história: Não vale a pena tirar o cavalinho da chuva se o seu desejo for marinho, pois na sua ânsia de cumprir um sonho, ele transformar-se-á em cavalo alado a que nunca se olhará o dente, antes de submergir nas águas gélidas do rio descobrindo, tarde demais, que irá sofrer de reumático até ao final dos seus dias!

14/5/08 14:50  
Blogger un dress said...

também vi:

caleidoscópico

alado

bolinhas de espuma na cauda

orelhas de vento e sal

rasga o céu

e solta a pedra

numa

tarde

in)esperada ~







abraÇo.beijO de asas

14/5/08 19:07  
Blogger dona tela said...

Já pus a música que o senhor me pediu. Isto assim é uma animação.

Até logo e muito obrigada pela colaboração.

14/5/08 19:20  
Blogger lilipat2008 said...

É nestas alturas que nós devíamos pensar em acreditar que as crianças têm mais que imaginação...e o cavalo que saltou para o rio...que seja feliz...:D

14/5/08 19:22  
Blogger musqueteira said...

no inicio toda a imaginação é criativa. depois no passar dos anos é inventida. assim se anda à deriva. saber olhar é recriar novas imagens;)

14/5/08 21:35  
Blogger Maria Anjos Varanda said...

Como eu entendo o tal do Equídeo...isto de ser "decorativo" cansa qualquer um...

E se todos temos o direito de sonhar, porque razão não podia o tal do Equídeo sonhar em ser....marinho

E já agora...já vi que prosa não lhe falta....e da boa...
Continue..

Beijos

14/5/08 22:41  
Blogger lenor said...

Realmente, têm aspecto de não ficarem a boiar.

15/5/08 00:39  
Blogger Licínia Quitério said...

Permite-me que leve muito a sério esta publicação. Deixa-me renomeá-la: "O Fabuloso Destino de ser Sensível".

Um abraço e já agora... um reliiiincho!

15/5/08 12:27  
Blogger Justine said...

História-sortilégio, contada com a maestria de um poeta.
Parabéns, sinceros.Texto encantador e encantatório.

P.S.:infelizmente o meu Mounty não toca trompete(ou era sax?), como o Mounty Clift fazia, no filme. Tb me lembro como se fosse ontem:))

15/5/08 12:52  
Blogger Maria Filomena Barata said...

Acredito que com esta imaginação difícil seja imaginares o "Mundo das Sombras". Mas olha que não são.
Abraço de mulheresaoluar.
Virei visitar-te muito mais.

15/5/08 17:14  
Blogger segurademim said...

... também o vi

amarinhou devagarinho, pela calada da noite e eu atrás dele com todo o cuidado não fosse falhar-me o pé

então, falta muito? - espera que está quase!
mas eu não vejo nada... - também não precisas!
não preciso? - não!!!
mas eu gostava!!!

há gostavas...

15/5/08 21:25  
Blogger EDUARDO said...

UM ABRAÇÃO grande amigo!!

15/5/08 22:04  
Blogger Maria P. said...

A maravilha da utopia...

Beijinhos e :)

15/5/08 22:51  
Blogger MARIA MERCEDES said...

Logo por azar, caíu em cima do casal que passeava de barco, enternecidamente e à deriva, no canal.
Quando os repórteres da televisão chegaram para documentar tão insólito evento, verificaram que o cavalo, estava envolto em ligaduras.
A repórter, pegou no micro, e como tinha a mania de ser engraçadinha nas peças sobre a desgraça dos outros, comentou: - É mesmo um cavalgadura! O casal não achou piada nenhuma...

beijinhos nada dolorosos

15/5/08 23:26  
Blogger São said...

Gostei muito , muito.
Bem haja.

16/5/08 01:41  
Blogger sinhã, a. said...

teimosa com'uma mula ;-)

16/5/08 09:58  
Blogger robina said...

Então lagartixa?

16/5/08 10:03  
Blogger RC said...

A cavalo dado não se olha o dente, como é evidente.

Xi teimoso

16/5/08 13:34  
Blogger ~pi said...

inventei um destino ainda pior!


ser


in visível!! :)

16/5/08 18:58  
Blogger Maria said...

A Gi vai estar ausente do blogue uns tempos devido a "sindroma vertiginoso". Nada de grave, apenas não pode estar frente ao computador.

Obrigada

16/5/08 19:22  
Blogger Leonor said...

ah, mas enquanto o sonho comandar a vida, nada se perde, diria eu

17/5/08 10:17  
Blogger Ruela said...

;)


haha.

18/5/08 23:47  
Blogger M. said...

Fabuloso!

20/5/08 15:39  
Blogger Auréola Branca said...

Fiquei com dó do cavalo. Por que nascemos pra uma realidade que não aprovamos? Não seria melhor se conformar com o que seria, de fato?

Tenho certeza que esse cavalo tem espírito de guerreiro!

Abraços.

9/6/08 17:07  

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