Thursday, July 06, 2006

DA PEDAGOGIA do FADO



















Sem prazer e sem desgosto
sem lágrimas pelas partidas
sem sorrisos pelas chegadas
preso nas paixões de agosto
e de outras só pressentidas
pois eram tantas as amadas
que em cada porto habitava
não lhe chegavam os braços
nem as promessas tão pouco
qualquer mulher que beijava
não se lembrava dos traços
sentia-se confuso e louco.

................................................................................................

A voz do cego extinguiu-se antes dos últimos acordes da decrépita guitarra se diluirem na ampla rua pedonal. Arsénio, que sabia distinguir a pureza melódica e letrista do fado essencial, do fado-canção, achou que devia premiar a coragem artística do pedinte. Da carteira, tirou uma nota de dez euros e depositou-a numa tampa de latão que o velho tinha à sua frente no chão. À audição apurada do cego, não escapou o acto. Desconfiado de início (porque eram tantos os que gozavam com a fatalidade alheia), os seus dedos tactearam lentamente a cédula do Banco de Portugal, a cara cavada de rugas abriu-se naquilo que poderia ser um sorriso e exclamou «Porra!!». Arsénio satisfeito, afastou-se com um brilhozinho nos olhos. Estava decidido; iria alistar-se na marinha.
Lisboa, 2006. Poema, texto e foto de: Alberto Oliveira.

38 Comments:

Blogger inBluesY said...

como pode, ser possível, afinal sempre é verdade... quantidade não é qualidade!

6/7/06 19:46  
Blogger Vodka e Valium 10 said...

«não lhe chegavam os braços»

'São dois braços/são dois braços/servem para dar um abraço/assim como quatro braços são para dar doir abraços/(...)/vão ser tantos os abraços que não vão chegar os braços'

- Sérgio Godinho

6/7/06 20:35  
Blogger João Mãos de Tesoura said...

Eh pá! Lá por nos terem roubado no jogo da França não vale a pena tanto sacrifício! Aliás, VIVA PORTUGAL!
Abraço

6/7/06 21:33  
Blogger Azul said...

Olá meu amigo. Não sei bem porquê, mas a verdade é esta: você adivinha-me em cada letra, em cada frase, em cada texto... o amor da minha vida é da marinha. Que delícia de imagem, Tejo e tudo. Que bela imagem, outra, podemos imaginar a partir do seu texto, sempre sábio, perspicaz. Um beijo para si. Até breve. Azul.

6/7/06 22:19  
Blogger sotavento said...

Olha, calhando, eu também vou!... :)

6/7/06 22:30  
Blogger Seila said...

os versos que o cego entoa
são de uma finura tamanha
que nem o texto me soa
tal cada verso se entranha

7/7/06 00:00  
Blogger Pilantra said...

Assim não vale! Nada deixou prever que o velho aceitava apostas e recebia dividendos!

7/7/06 00:44  
Blogger Teresa Durães said...

Mais um fim que nos faz sorrir pelo inesperado! Mais uma excelente história!

(e nesse barquinho ando todos os dias...)

7/7/06 01:21  
Blogger poca said...

sim, às vezes faz-se luz em coisas qeu não têm nada a ver

7/7/06 03:37  
Blogger Mendes Ferreira said...

quem é que tem um post lindo no amar palavras quem é?????


beijo.



bom dia.


(obrigada pelos www.)

7/7/06 08:23  
Blogger Pseudo said...

Final sorridente e caloroso :)

7/7/06 09:20  
Blogger segurademim said...

...Portugal país de marinheiros... cegos?
...
"qualquer mulher que beijava
não se lembrava dos traços"

7/7/06 10:27  
Blogger Joana said...

olha!
e eu que sempre gostei de homens de farda... dá uma certa altivez e combina sempre com qualquer vestidinho que eu use!
lolol
:)
beijinhos!
bom dia!

7/7/06 11:16  
Blogger anirac said...

Que fado esse que lhe corre nas veias, lindo!Adorei o poema, bom fim de semana***

7/7/06 12:16  
Blogger Sea said...

Não consigo fazer comentários hoje. Deixo-te um beijo e, mais uma vez, gostei imenos do texto.

7/7/06 12:29  
Blogger Luz said...

Gostei muito do texto! :)
Beijinho.

7/7/06 13:02  
Blogger Rui said...

Carissimo,

Raptei o Arsénio. Não para pedir resgate, que sei que a última nota que tinha ficou o cego com ela.
Raptei-o quase sem crer. Espero que não te importes.

(A mega-produção existe na cabeça, é a história de um anão que queria participar na marcha de Alfama, mas a quem não deixam cumprir o sonho. Está adiada, à espera de qualquer coisa)

7/7/06 13:23  
Blogger Vanda Baltazar said...

E assim, contigo, se fecha o ciclo...dos três Fs :))

Em Maio, os 600.000 em Fátima.

Em Junho, a febre do Futebol.

Em Julho, o Fado :))

vamos a uma desgarrada???


O Fadinho mora sempre
por castigo
num bairro antigo,
num bairro antigo,
e a seu lado para falar
sempre à vontade
mora a saudade
mora a saudade

quase em frente
numa casa de pobreza
mora a tristeza
mora a tristeza

tem corrido velhos bairros
sempre à toa
mas mora em Lisboa,
mas mora em Lisboa! :))

ah booooca linda :))))

ah fadista ;))

beijos e sorrisos :))

muitos.

Van

7/7/06 13:26  
Blogger segurademim said...

Ó Ó Ó sem lágrimas pelas partidas pó seixal?

tava o homem tão sossegadinho a cantar...

;)

7/7/06 15:25  
Blogger Tons Pastel said...

Que belo post! O mar à vista, o barco, a viagem por fazer, um fado bem cantado..tudo, tudo, para um bom fim de semana.
Beijos muitos. Obrigada.

7/7/06 15:53  
Blogger robina said...

Tu, embalas a malta e de repente soltas uma "porra" que a malta até estremece :-)))

Bom fds

7/7/06 17:10  
Blogger MC said...

Alberto Albertto,

aqui fica, com votos de um bom fim-de-semana, um belo poema do Affonso :)

O teu também é muito belo. Mas isso já não é novidade. :)

O que me parece, é que temos todos de aprender a ser cegos... :)



Começo a olhar as coisas
como quem, se despedindo, se surpreende
com a singularidade
que cada coisa tem
de ser e estar.

Um beija-flor no entardecer desta montanha
a meio metro de mim, tão íntimo,
essas flores às quatro horas da tarde, tão cúmplices,
a umidade da grama na sola dos pés, as estrelas
daqui a pouco, que intimidade tenho com as estrelas
quanto mais habito a noite!

Nada mais é gratuito, tudo é ritual
Começo a amar as coisas
com o desprendimento que só têm
os que amando tudo o que perderam

Affonso Romano de sant'Anna


beijos,
mãe a caminho da reforma :)

7/7/06 18:20  
Blogger alice said...

legivel,

obrigada pelas tuas palavras

deixo-te o meu melhor sorriso

não posso fazer mais, agora

beijinho muito grande,

alice

7/7/06 18:58  
Blogger MC said...

PS - O título do Poema é Despedidas.

Mais outro beijo

7/7/06 19:01  
Blogger tb said...

Tudo perfeito!

7/7/06 19:33  
Blogger Teresa Durães said...

(pois...pombos... tenho de ir que hoje há festa em caso de amigos e daqui a pouco cá em casa matam a passarada se não saio do pc!)

7/7/06 20:02  
Blogger Luna said...

Partidas e chegadas, ´e o eterno fado da vida

7/7/06 20:43  
Blogger batista filho said...

Sobre o post anterior:

Gostei... exemplo de como se pode fazer um bom post com tempo de menos e uma idéia a mais!

Com relação ao atual... a exclamação do cego já justificaria a travessia feita até cá... pô!!!

Um abraço fraterno.

7/7/06 20:46  
Blogger as velas ardem ate ao fim said...

porra este bloggue e mm bom.
bjo

7/7/06 22:01  
Blogger mixtu said...

as amadas em cada porto...
besitos

7/7/06 22:30  
Blogger legivel said...

Para mixtu:

"besitos"?!
Depreendo que "para as amadas"...

7/7/06 23:46  
Blogger lélé said...

O cego exclamou "porra!!" e pensou "ou é forreta, ou é pelintra! uma idéia destas vale bem mais que 10 euros!"...

8/7/06 01:38  
Blogger dreams said...

primeira visita e gostei muito...

em todas as vidas, em todos os momentos há partidas e chegadas...

um beijo doce *
“·.¸Dreams¸.·”

8/7/06 02:00  
Blogger OvelhaNegra said...

Cá para mim o Arsénio resolveu experimentar a receita do J.Cristo pensando que com a nota de dez euros fazia o cego ver.
Como o resultado ficou aquém do pretendido, com vergonha, resolveu zarpar num dos botes da marinha, em busca dos muitos braços amnésicos que o fado lhe prometia.
Um sorriso.
Um beijo*
Bom fim-de-semana :)

8/7/06 08:14  
Blogger manhã said...

A dúvida está entre marinheiros e fadistas ou ambos que à falta de discernimento o melhor é não decidir nada.

8/7/06 10:05  
Blogger alice said...

vim dar-te um beijinho

mesmo

alice

8/7/06 17:59  
Blogger sonia said...

E viva a marinha. De repente não ouvi fado, mas Village People.
Beijinhos

8/7/06 21:59  
Blogger nnannarella said...

" Ah! todo o cais é uma saudade de pedra." (Alberto, digo Álvaro de Campos)

E todo o marinheiro é uma figura romântica e um Casanova do século dezoito, que se move nas suas sete quintas, digo, nos seus sete mares, deixando para trás "labirintos de saudade".

9/7/06 05:07  

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