ENCONTROS IMEDIATOS

Rudolfo caminhava sem um rumo estabelecido. Não era a primeira vez que o fazia e não seria a última, porque confiava que até onde as pernas o levassem, estaria tudo bem. Esta técnica tinha a vantagem de desligar o cérebro do resto do corpo e libertá-lo para outras tarefas cognitivas bem mais interessantes que cansar a vista na montra da loja de produtos dietéticos, frequentada nas horas comerciais por uma fauna esquisitíssima, naquela outra com o vidro preenchido de anúncios de casas que pelos vistos se vendiam como ginjas -tal a proliferação de lojas de tal ramo, ou ainda na janela de rés-do-chão do número treze, onde um gordo gato preto de olhar nostálgico de Janeiros passados, parecia querer lamber aquele pedaço de rua. E em tão matinal momento do dia, havia a vantagem de não se ouvir ainda, o som de uma cidade a viver desenfreadamente.
Neste cenário de quase silêncio, sem gente que a vista pudesse alcançar, Rudolfo ouviu uma voz tão perto de si, que as suas pernas surpreendidas suspenderam a marcha. «Desejo-te um óptimo passeio, mas cuidado ao atravessar as ruas. Olha que há para aí cada maluco!... ». O seu olhar varreu redores e arredores e quedou-se mudo de espanto numa mão que se encontrava à sua esquerda vogando no espaço próximo da parede da casa do Rodrigues da tabacaria. Acenou-lhe brevemente e desapareceu. Atónito, Rudolfo, juntou dessa vez as pernas ao pensamento e voou para casa. Mais calmo e depois de beber um copo de água bem fria, percebeu. Era a mão que raramente metia à consciência.
Algures no Algarve, 2006. Texto e foto de Alberto Oliveira.
69 Comments:
Fazer algo conscientemente é melhor que inconscientemente: dá-lhe validade.
foi um post desconcertante...
um dia todos "caímos em nós" ou por acidente ou por rasteira
saber ouvir é uma virtude
....acordado por fim, Rudolfo decidiu fazer limpeza ao sótão.
Arrumou nas prateleiras certas os albuns de fotografias, abriu as malas de porão -herdadas de um tio avô que tinha a mania das viagens- e verificou que há muito a naftalina se tinha evaporado nas asas das traças que agora ali descobria. Com aquela urgencia caracteristica do ACORDAR, depois de um longo sono, limpou o pó, tirou as teias de aranha e passou a esfregona no soalho, embora só com agua porque se tinha esquecido de comprar detergente.
Desceu e tomou um duche revigorante, fez a barba e desta vez não se esqueceu do after shave..."old spice", que uma namorada há uns anos lhe tinha oferecido -que seria feito dela?nunca o tinha perdoado, é um facto. Vestiu aquele fato de treino azul que tinha comprado numa promoção do Jumbo e gostou de se ver ao espelho.
Contente consigo próprio, sentou-se por fim exausto na poltrona habitual...estava pronto para um novo dia em frente à TV, entre a azáfama da RTP Memória, Discovery e do People & Arts :)
Um beijo risonho e obrigada pelo espaço -este final de Taça não me prende ao ecran ;)
Acertaste em cheio na indisciplina :)
mais um beijo por isso :)
Van
Obrigado, não tinha sabido como acabar.
A mão e a voz que todos nós possuimos mas, normalmente, não damos uso ou ouvidos. Fazemos de conta que não é nada.
a tua história é melhor que a minha...!
:) :) :)
_______________que raiva....brinco.
beijo.
(e obrigada)
sim... grande verdade.
Infelizmente, não é só o Rudolfo que raramente mete a mão na consciência. É algo que acontece muito mais vezes do que o q desejamos.
É que é tão mais fácil - e provido de alguma irresponsabilidade - fazer algo inconscientemente... O problema é que quando essa mão aparece nos faz pensar e nos chama à realidade...
beijocas
Ola...
Sempre e vou atrás da querida amiga Clarissa e do grande amigo Pires é como se eu segui-se um arco-íres, sempre encontro um tesouro no fim.
Parabéns, sua forma de escrever é encantadora, conto perfeito, quantas vezes nos perdemos em pensamentos, e quantas somos acordados...
Final mágico.
Irei ler os outros post com calma, ganhou um fã amigo, voltarei sempre.
Ótima semana pra tu.
[s]s
digo-te,sinceramente, um "delicioso! adorei!" sentada no olhar da nossa capital :)
A água fria, ao lhe tocar no estômago, teve o dom de o fazer perceber outra coisa: nunca devia ter deixado de jogar futebol, afinal, tinha ainda uma carreira promissora à sua frente quando pendurou as chuteiras. O Almada Atlético Clube precisava de si e ele do clube, percebia isso agora.
Sentado na bancada, olhava para o céu e via duas mãos, lá bem no alto. Mãos fortes, de pedra, qua pareciam abraçar tudo à sua volta.
Sentiu-se reconfortado.
Desviou o olhar para o campo relvado, que estava vazio. Mas não na sua cabeça, aí desenrolava-se mais um jogo, em que ele, Rudolfo corria isolado para a baliza adversária... conseguiria marcar? fecharia os olhos e remataria com o pé que estivesse mais à mão.
Essa "mão" aparece muito pouco e a muito pouca gente, digo eu!... :|
Que dizer de mais este excelente texto? Divinal. Sabendo que a escrita (heheheh) é o teu forte nao me deixo nunca de me espantar. Mt bom, meu amigo.
bj
querido legível,
vou escrever algo para ti na caixa de comentários do meu último post
de resto, não sou capaz de competir com as palavras da minha querida amiga vanda, pelo que me fico por um beijo pelo teu post
fica bem;)
alice
Ao menino e ao borracho mete Deus a mão por baixo. No teu caso é mão da previdência, não por baixo mas pela frente.
Um abraço. Augusto
querido legível,
obrigada pelo teu novo comentário
ainda bem que não interpretaste mal as minhas palavras...
tive receio de escrever o que escrevi, sobretudo porque respeito a liberdade dos teus comentários, independentemente do contexto dos posts em que se inserem
conto sempre contigo, caro amigo...
e ainda bem que esta tendência se generaliza, pois isso incrementa o contacto e o afecto entre a rede
um grande, grande beijinho,
alice
belissimo texto, um final provocador. gostei muito do Rudolfo, e do bocadinho dele que tenho dentro de mim.
beijinhos
OLá Alberto!
Está excelente.
(Muitas vezes chego a pensar: uma mão que se meta na consciencia pode até nem ser grave. O problema, meu amigo, é o que ela de lá poderá trazer!)
Um abraço
Supermioleira é a minha irmã. [Sorri o sorriso orgulhoso e imbecil de irmão mais novo.]
Olá meu querido amigo leitor. Pois, eu tenho andado em leituras muito absorventes (lá pelas bandas da Filosofia)que me têm tirado tempo para aqui vir. Prometo que não desaparecerei está bem? Grata pela visita uma vez mais. Pus lá uma citação de texto do herberto helder de que gosto muito, e que de certa maneira, revela muito bem o que me tem, tb a mim, mantido um pouco afastada daqui. Creio que irá gostar de o ler. Um grande beijinho para si. Até breve.
Só pode...
conscientemente: obrigado.
beijo.
Caro Legível
Estes encontros imediatos com partes avulsas do corpo é de deixar qualquer um atónito, especialmente no meio do silêncio de uma cidade ainda adormecida.
Cá para mim o Rudolfo (e sempre penso na rena quando vejo este nome, sabe-se lá porquê) andava com a consciência pesada :)))
Uma boa noite para si
convenhamos que meter uma manápula dessas numa coisica piquitititinha como a consciência, não é pêra-doce!...
Que dizer? Magnífico!!!
Sorte de quem tem uma mão assim.
Beijos
...quando penso em rudolfo tenho um encontro imediato com renas, neve, natal, sei lá...deve ser o inconsciente que me leva conscientemente para recantos de memória de velhos tempos ou ainda aqueles que se irão passar...são contos natalícios...são contos de encantar...
Viva Legível,
Os pássaros...também poisam na mão da consciencia!
Pois, se for hoje ao lançamento do dito livro às 18.30h .... lá estarei;)
olá,
será que poderás me dar uma ajudinha ?!
vai a:
http://tunaoexistes.blogspot.com/
verá um blog inteiramente dedicado à publicação do meu novo livro
parti nesta aventura - por sugestão de alguns amigos - de o dar a conhecer sem qq contrapartida
gostaria que resultasse
se puderes ajudar, fico-te muito grato!
(como podes ajudar?: é fácil, se pderes fazer um post que o anunciasse, seria divinal, dado o nº de leitores que o teu blog tem
além disso,
a tua própria opinião seria MUITO IMPORTANTE)
obrigado!
Para vodka e valium 10:
... pois; que é o que eu faço antes de comer um yogurte conscientemente. Confirmo a sua validade...
Para joana:
Até eu, depois de editar esta cena, fiquei desconcertado comigo (não é a primeira vez que acontece... ) e tenho de imediato uma grande conversa do género "onde é que metemos água desta vez?!" com o Legível e com o Alberto Oliveira. No fim, apuradas as causas, prometemos voltar a fazer o mesmo ou ainda pior. Ou seja: caimos, levantamo-nos e voltamos a cair!!. É o chamado "ter queda p´rá queda... "
bjs.
Para inbluesy:
É pois. Para quem não tem problemas de audição. Eu já tive. Fiz três audições e todas elas foram um fiasco. Invariavelmente diziam-me «Você, nem a tocar de ouvido convence!» Desisti e agora oiço tudo o que me dizes... menos o que não convém...
bj
Para vanda baltazar:
... foi quando se lembrou que tinha metido roupa na máquina de lavar a loiça na noite anterior e arrumado a gaiola do canário no congelador.
Despiu o fato de treino azul, tocou à campainha da vizinha do lado e balbuciou «Sou um desgraçado, vizinha!» Ela olhou-o de alto a baixo e respondeu «Estou a ver que sim, estou a ver que sim... »
Um beijo sorridente pela simpatia da comentadora e outro porque sim.
Para vodka e valium 10:
De nada. Limitei-me a seguir um caminho já construido por ti. E iniciar é sempre o mais difícil...
Para sea:
Temos (generalizo, que há sempre excepções à regra... )o mau hábito de olhar para o lado e assobiar. É um vício que vem de longe e de difícil libertação... pois andamos sempre com as mãos ocupadas.
Para mendes ferreira:
Não é nada! Mas quando fôr grande vou escrever uma estória que te vai espantar. Parece que já te estou a ouvir «Ele já demonstrava que a sua caixa dos pirolitos não andava muito famosa; meteu-se em cavalarias altas com a seven-up, prontos! pirou de vez... »
beijo.
Para anirac:
Ói... que velocidade!! Tudo bem. Não te esqueças de fechar as luzes, a água e o gás. Tranca bem a porta e deixa-me a tartaruga que eu tomo conta dela.
Claro que voltas! Pensavas que ia ficar com o animal muito tempo?!
beijo.
Para poca:
Claro.
( e o animado diálogo manteve-se até altas horas do dia... )
Para mulhergorducha:
Não é só ele pois não! Até o Deodato, qué que pensas?! Julgas que eu alguma vez o vi meter a mão na consciência? Olha quem! Ele mete a mão é a tudo quanto é doce... o grande guloso!!
beijocas.
Para bill:
Ói! Tudo bem com você? Surpreendeu-me o seu comentário, pois refere aqui dois caras ( a Clarissa e o Pires) que eu conheço não. Você os persegue e no fim tem um tesouro; não me diga que é um concurso de tv?! Também quero ganhar um tesouro!! Onde me inscrevo?
Obrigado pelas suas palavras simpáticas.
Óptima semana também pra tu.
Para seila:
"... sentado no olhar da nossa capital... "
Ó mulher! Tu não me digas que te empoleiraste em cima da cabeça do Sebastião José de Carvalho e Melo para veres o Tejo?! Tem cuidado contigo!!!!
...de mãos ocupadas, esqueci-me de ouvir. Ouvir aquela voz. Distrai-me pelo banal, encurralei-me no vazio. No vazio de deambular, de olhos e ouvidos postos, apenas no meu caminho.
Para jorgesteves:
Essa sim!; é que era uma família à minha medida... Mas infelizmente não teria lá lugar. São tarados profissionais e que não perdem tempo com blogs... ou outras coisas mais terrenas. E depois o nome artístico não me soaria lá muito bem: Legível Adams. bah!
Abraço.
Para rui:
"... rematou com o pé que estava mais à mão e ouviu de imediato um lancinante grito feminino. No ardor do jogo-sonhado, tinha dado um valente biqueiro na sua cara-metade. De joelhos implorou o perdão para tão grave falta. Nada feito! A mão dela voou célere à gaveta da mesa de cabeceira e mostrou-lhe decidida, de mão esticada um cartão vermelho.
A época acabou mal para Rudolfo ; e para o Almada Atlético Clube...
Para sotavento:
Cruzes canhoto! Ainda bem mulher, que ela não aparece assim a qualquer hora e ao virar da esquina!
E sobretudo essa; que me faz lembrar a mão da minha tia Deolinda que um belo dia (quando eu era puto) me deu uma lambada que até vi estrelas. Se queres que te diga, já nem sei porquê. Mas se ela tinha a mão leve, eu também era fresco...
Para sofia:
Obrigado amiga por tão simpáticas palavras. Mas o meu forte são alguns petiscos que seria fastidioso enumerar aqui. Inda há pouco acabei de jantar e... já almoçava (!?)
bj.
Para alice:
Um beijo também pra ti querida Alice.
Para augustom:
É interessante esse jogo de palavras... com mãos. Por baixo e pela frente. O que eu fui arranjar...
Abraço.
Para alice:
Alice:
Não deves recear más interpretações da minha parte ao que escreves. Que eu também não receio que me interpretes mal. E a existirem -porque errar é humano, decerto que já demonstrámos que temos agilidade mental para reparar o sucedido...
... e prosseguir, enquanto assim o entendermos, um diálogo onde é comum o prazer do escrever pelo escrever e da amizade. E que se possa estender a outrém...
beijinho grande.
Para sónia:
Eu sei que tens um bocadinho dele dentro de ti. Naturalmente que é por isso que os teus textos não me deixam indifrente.
Beijinhos.
Para jpd:
Caro José:
É uma boa observação, sim senhor! Mas eu prefiro não divagar sobre tal assunto para ter uma noite calma e um sono retemperador.
É que eu tenho uma consciência tão frágil, tão frágil, que se lhe dou um toque mais brusco, ela parte-se em mil bocados. E não quero ficar inconsciente...
Abraço.
Para vodka e valium 10:
Ops! Afinal a escrita inventiva e escorreita estende-se familiarmente...
Para azul:
Olá amiga Azul! Só pretendi saber se estava tudo bem consigo e ainda bem que sim. Prossiga as suas incursões filosóficas (bem me queria parecer... )que o tempo para estas conversas há-de aparecer... com tempo.
Herberto, sempre!
Beijinho amigo.
Para amigona:
Um sorriso daqui; da mesma margem...
Para mendes ferreira:
Grato sou eu. Porque sorrisos conscientes fazem imensa falta num país de sorumbáticos...
beijo.
Para maite:
Cara Maite:
"... com partes avulsas do corpo... " (eheheheh). Apenas uma mãozinha; nada do outro mundo.
O Rudolfo e as renas, as renas e o Rudolfo... que situação ambígua para o coitado...
Tenha um óptimo dia!!
Para lélé:
Uma manápula?!. Cum caraças!! o que eu vou ouvir!!!
Nas peras-doces, alinho.
Para mc:
... ah! assim está melhor!! duma manápula (de um comentário acima) para uma mão assim vai uma substancial e positiva diferença. ´brigado mc!
beijos.
Para phi@:
Ó pá! outra vez as renas?!
É. O consciente leva-nos inconcientemente para vivências passadas, presentes actuais e futuros que hão-de vir.
(não sei porquê, mas acho que isto que escrevi não faz sentido nenhum... )
kisses.
Para musqueteira:
Viva Musqueteira!
Infelizmente não deu para ir a Lisboa. Morar deste lado, por vezes ainda é um contratempo...
Tenha um bom dia!
Para nuno marujo:
Olá Nuno:
Vais-me desculpar a franqueza; mas não achas que estás a exagerar?! ao chamares de ajudinha a tua solicitação para que eu opine sobre as tua letras (como se de um crítico literário me imaginasses), edite um post no meu espaço chamando a atenção para a qualidade da tua escrita, e se puder, arranje uma cunha num eventual editor amigo ou conhecido (como li no teu blog)?!
Então e a extensa fila de gente que anda pela blogsfera à espera de tão almejado milagre, que já cá mora há uns tempos largos e tirou senha antes de ti?!
Há um factor positivo a teu favor (?!); pelo menos tens a latosa de o dizer claramente...
Cumprimentos.
Para sea:
... que isso não te retire a capacidade de sonhar... acordada. Há esquecimentos bem mais graves e esse foi pontual. Acredita que o teu caminho não tem escolhos.
Legível, não estava a falar de mim mas sim do Rudolfo
Para sea:
Desculpa-me. Mas às duas por três já meto os pés pelas mãos e confundo as personagens que ficcionei, cometo erros de leitura como aconteceu com o teu e... é o descalabro total!
Também se não fosse assim, que piada é que isto tinha?!
o que não convém ... só se for um puxão de orelhas mas nã não me parece nada, só o ar fresco e divertido que contornas os comentários merece o tal bolo mesmo que a maçã venha do feijó, perdoa-me apenas brinco, não contigo que o respeitinho é muito bonito ;), mas este ar bem humorado é de facto simpático :)
... que gato mais guloso! então lambia a rua inteira... não admira que a mão se pusesse a milhas
imagem fantástica!
Esse texto, caro amigo, é daqueles de se guardar numa caixinha, para um dia, quem sabe?... pois merece figurar numa coletânea dos teus melhores trabalhos.
Um abraço fraterno.
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