A OVELHA VOADORA
Não é a primeira nem será a última vez que tentam entrar-me em casa não sendo convidados, utilizando o acesso mais natural nestes casos: a porta. Estou a referir-me, por exemplo, à minha prima em terceiro grau Sezinanda - com quem cortei relações logo que me informaram que tinha uma familiar com tão despropositada graça e que ainda não perdeu a esperança de me provar que o Alberto Jardim da Celeste tem mais piada que os Monty Phyton todos juntos. A uma anónima delegada de vendas de um monstruoso aparelho aspirador equipado com um arsenal de extras onde provavelmente se encontraria uma lâmina desfazedora de barbas assassina, que pretendia à viva força limpar cinco centímetros quadrados do enoooorme tapete de Arraiolos que se estende ao comprido no hall, para provar a eficiência da assustadora máquina de guerra. De um simpático casal sénior (raios m´partam se aquilo não é um arranjinho!) que não desistia de me convencer que uma conversa a três (como é que esta gente adivinhou que sou viúvo?) era meio caminho andado para cantar hossanas na próxima celebração de um credo religioso que não fixei o nome. Ou de um sujeito com mau aspecto que se apresentou como representante da tv cabo e quando lhe disse que já estava servido, pôs um pé entre a porta e o limiar da entrada. Bem arranjado estaria eu se não me ocorresse pisar-lhe os calos e fechar-lhe a porta na cara. Hoje, já quase noite, foi a vez de uma ovelha. Voadora. Que optou pela janela da varanda quem sabe se atraida pelos acordes jazísticos de Miles Davis. Voou, sobrevoou, subiu, desceu, mas não me convenceu. Nem sequer tinha consigo um lenço de assoar.
2009. Texto e vídeo de Alberto Oliveira.
39 Comments:
As coisas que lhe entram porta dentro!! ;)
Excelente estória, aliás como já é hábito. De continuar...!
Bjs e boa semana.
Pois. A mim, por vezes, também me acontecem coisas estranhas quando ouço Miles Davies... :)
Um abraço.
Mas se a ovelha voadora (apesar de não conseguir definir lá muito bem o seu voo) entrou pela varanda, não pode ser uma visita indesejável já que o narrador frisou a porta desses outros abusadores. Contundo relembro que com o leite da ovelhinha se faz um queijinhos que se pode atirar à cara de quem toca a campainha e provar por A+B que o aspirador não vence ovelhas!
eu vinha aqui vender-lhe uma máquina de aspiração de beijos como o da foto abaixo, mas vou-me já embora, beijinhos :)
Francamente, não acho nada estranho. Eu moro num rés-do-chão e um cavalo da GNR bateu-me à janela a pedir um euro para poder estacionar. O que eu não tenho é uma máquina de filmar como a tua.
PS: Uma delícia de post, aliás como é hábito.
Abraçote.
Miles...é alucinógeno.
Eu gosto.
rsrs
beijos
della
mails voadores já tinha ouvido falar! Agora ovelhas a voar do meu lugar para o teu, ó Alberto de Lisboa, é "munta conhecidência" como diria o entrevistador do menistro!
E fizeste bem em lhe recusar o poiso que nunca se sabe o que nos entra pela "janela do mundo" adentro. Aliás entra-nos pelo olho tv, pelo telefone, pela porta e ainda
por esta nossa via
que às vezes recebo
cada balde de água fria.
(lá estou eu a versejar contigo)
Miles e miles de abraços.
:))
Terá sido enviada pela CIA para te roubar as fantasias do papel?
Com tanta modernice que anda por aí, eu não me admirava muito :))
Beijos, sorrisos e até jazz :)
Espero bem que a ovelha e a vendedora do aspirador não se tenham encontrado...se a máquina era assim tão potente ainda tosquiava a ovelhita toda, o que não é nada agradável com este frio...:)
bjitos
._______querido Alberto
coisas do
.OUTRO MUNDO!!!_____:=)
__________///
beijO____ternO
Mas as ovelhas voadoras e que gostam do Miles Davies não são nada ranhosas, dessas acho que podias deixar entrar: ela ficaria muito sossegadinha, de olhos em alvo e meia em transe, e só leantaria voo de novo quando o solo acabasse - e se levasse alguma coisa seria apenas o CD...
Coitada da ovelha! Nota-se bem a aflição dela, a hesitação "entro, não entro?"... Logo havia de calhar na casa do Miles Davis! Pelo menos, não aconteceu por volta da meia-noite, senão, menino para lhe atirar o trompete era ele, era, era!...
Pelo menos não era uma ovelha negra, eheh
uma ovelha com asa? e motorizada? mais um fruto de experiências laboratoriais....
bem, tiveste sorte, pelo menos não vinha acompanhada pelos restantes elementos do rebanho.
marradinhas amistosas
estranhas coincidências ... eu quando oiço o blue train do coltrane costumam aparecer-me os vizinhos, todos transformados em homens voadores.
Boa semana.
E eu que estava a pensar bater-te à porta...(acabou-se o açucar!), mas depois disto, lá terei de comer a aletria azeda.
De regresso à sua cidade natal, sentada numa das esplanadas da Place de la Comédie, Dafne tentava sentir saudades de Montpellier. Em vão. Todas as saudades iam para aquele beijo passado. Todas as saudades iam para Filippo Orsini. Onde estaria ele, naquele exacto momento? Pensaria nela, no beijo (quase) trocado - e seria preciso os lábios se tocarem para que houvesse um beijo, ou bastaria o desejo partilhado por ambos?
Reprimiu a vontade de gritar, quando se lembrou que não tinham trocado contactos. Voltaria a vê-lo? Receava que não. A menos que...
Recordou uma antiquíssima tradição local: a de, para comunicação a grande distância, usarem ovelhas-correio (que os pombos sujavam os monumentos e as ovelhas tinham melhor sentido de orientação). Seria uma ovelha-correio capaz de achar Fillipo?
Decidiu arriscar. Escreveu das suas saudades, do seu encantamento, do desejo de um outro beijo, dirigiu-se à Rent-a-Sheep local e amarrou, com quanta força tinha, a missiva à pata do animal. Vai, eleva-te. Que os ventos te sejam benfazejos e te guiem a Fillipo.
No décimo quinto andar com vista para o Homem-dos-Abraços, Fillipo sorria de contentamento. 4 a 1. Assim, sim! À janela da marquise, com a lã ensopada e a tremer de frio, uma ovelha tentava chamar-lhe a atenção.
Todo o cuidado é pouco...
Quando vivia num 5ºandar, só abria a porta depois de espreitar pelo buraquinho e nunca vi qualquer ovelha voadora a pairar sobre a varanda, mas agora a viver num rés-do-chão, sem buraquinho,tenho que espreitar pela janela do escritório e não entro em conversa com desconhecidos.
Isto é uma resposta prosaica a uma história bem divertida! :-))
Abraço
pois olha que fizeste mal... a páscoa não tarda e esta parece bem gordinha.
beijoca
Acredito, caro Alberto, não ter havido uma intenção maliciosa da parte do ovídeo. Consta-se que se lhe teria enfiado um bando de aves migratórias nos reactores obrigando o assustado lanígero a fazer uma aterragem de emergência nos seus aposentos. A comunicação social irá por certo enaltecer a perícia do quadrúpede e entrevistar o dono do apartamento no sentido de saber se tem o pagamento das prestações em dia. A propósito, é perto do estádio de Alvalade?
vou ver se no Alentejo há olvelhas voadoras, que borregos pastando sei que há muitos ....
peço desculpa pelo lapso, mas referia-me às ovelhas e não a nenhum hibrido ... Bom fim de semana também.
Sem abusar da casa de ninguém...
mas também quero asas, por isso
convido-te a visitar este início de voo:
http://escritariscada.blogspot.com
Beijinhos
gosto de coisas pesadas e redondas
que se elvam inesperadas de asas
( ao som de miles
( quem me dera ver! :)
beijo
~
e le v am :)
somos como ovelhas muitas vezes.... voando pro ond enão deve.... como se fosse natural isso para nós
Olá Alberto
A Dolly, apesar de colonada, não esgotara as surpresas. Afinal também era capaz de voar.
Agora diz-me tu: porquê até à tua janela? -- Para comprovar a sua pura-lã-virgem?
Um abraço
Andamos para aqui a fazer catarses, é o que é.
Ah, se me tivesse aparecido uma destas eu tê-la-ia deixado entrar. Além de ter leite sempre fresco, ela poderia transportar-me janela fora e volta, sempre que eu quisesse ver-me livre da Loulou e da Nini por umas horas.
e, é verdade, o problema da cadeira está definitivamente resolvido?
Alice, a Fininha
Pois é...e eu que me queixava das baratas voadoras...e dos não tão voadores senhores das promoções da PT... se o mundo não fosse este lugar estranho, eu diria que tu tens tendência para atrair a desgraça...ou isso ou deste uma pancada nos chakras que andam confusos e desalinhados...os meus tb não andam grande coisa, por isso e pelo não, vou dormir com a janela fechada.
Cuidado, elas voam aí. e gostam de ti, e gostam de ti.
Los burros también suelen volar.
Di niña lo creía cuando mi padre me decía: "mira, un burro volando..."
Y yo miraba.
Mi ingenuidad no me ha abandonado todavía.
Saludos.
ah, mas quando se ouve alguns músicos, coisas diferentes tendem a acontecer!!!
(mas ovelhas voadores, jamais, como diria o outro)
Boa semana!
Vá lá, vá lá... Pior que as ovelhas são as vacas voadoras!
Além de habilidade de mestre para desembaraçar-te de chatos (a dos calos, foi do melhor!) ainda tens bom gosto (embora eu sempre tivesse suspeitado): Miles Davis é tuuuudo!
Feliz Ano Novo, sinhorescrivão!
O calor não me derreteu, mas o excesso de trabalho quase conseguiu desfazer-me. Ainda bem que a vida é dinâmica e surpreendente, isso sim salva, para acompanhar o provável jargão dos teus vizinhos velhinhos e religiosos.
Impecável texto, sim senhor! 2009 não fica nada a dever ao anterior.
Beijos do Atlântico Sul, pra já...
Teria sido essa ovelha voadora e capaz das maiores aventuras que passou pelo outro planeta e levou o óscar, os galardões e tudo o resto?
:)
SOS:
precisamos IMENSO
de um substituto para o João.
Loulou + Nini
¿Ovejas voladoras?... qué raro, por aquí todavía no llegaron... quizás porque estamos bien al Sur.
¡Saludos!
Ainda ontem uma passou por cima da minha cabeça, haha!
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