Monday, May 02, 2011

A VISITA

Beijei-te como se não te tivesse beijado há vinte e quatro horas antes. Foste tu que deste pela entrada do enfermeiro e me fizeste um sinal desmaiado com a mão, da presença dele. Era um corpo coberto com uma bata, dois braços deligentes, duas pernas comuns, olhos cinzentos claros inexpressivos e que deambulou pelo quarto como se eu não existisse. Leve como chegou, assim se foi, depois de ter anotado letras e números numa papeleta presa aos pés da tua cama. E se te beijasse outra vez? perguntei-te sabendo de sobra que não há respostas para fazer aquilo que tem de ser feito, como ouvi um destes dias um fulano cantar na rádio. A tua boca já deixou de ter o gosto a homem que se quer mas é assim que gosto dela, este beijo é mais demorado que o anterior, estou no limiar da terra do êxtase e tu, no estado em que estás, não ofereces resistência. É o que tem de agradável este hospital particular: quarto individual, enfermeiros silenciosos e distraidos a propósito, gerânios em profusão e uma cópia emoldurada do tríptico "three studes for a crucifixion" de Bacon. No chão, jaz o meu vestido vermelho-sedução e a roupa interior cor-de-pecado-em saldo; e com o meu corpo desnudo e branco sobre o teu -- amarelado, extinguindo-se breve, faço-te uma derradeira pergunta: e se te levasse agora?





2011. Texto de Alberto Oliveira.

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